Guia de cegos

poemas de Piedad Bonnett

Desenho à lápis de Daniel Segura Bonnett

HARMONIA

Ouça como os tigres se amam
e a selva está cheia de suspiros profundos
e a noite se rompe com seus relâmpagos ferozes.
Veja como as estrelas giram
na dança eterna da harmonia e seu silêncio
é povoado de sussurros vegetais.
Sinta o cheiro do mel espesso que as árvores destilam,
o leite escuro que suas folhas expelem.
O universo inteiro se trança e destrança
em cópulas secretas e infinitas.
Geometrias sábias, que entrelaçam as formas
de caracóis dóceis e serpentes impiedosas.
No mar, há um canto de sereias.
Toque minha pele,
trêmula e exposta aos espinhos,
antes que o ritmo do meu sangue cesse,
antes que eu retorne à água e à terra.

De “Círculo y ceniza” (1989)

*

GUIA DE CEGOS

Toque toda a superfície das coisas. Passe
a palma da mão pela madeira, sinta suas nervuras.
Toque o bronze. Que a seda lhe dê sua água e o mármore
conceda sua memória. Toque o cristal. Muito bem.
O veludo, a doçura amolecida do tapete.
Não, não olhe para o céu. A outros ele pertence.

De “El hilo de los dias” (1995)

*

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL

Aprenda a lição: mate os pássaros
para evitar que ao vê-los voando em seu jardim
queira voar.
Depois feche os olhos para a paisagem.
Ponha pele sobre pele e conte os ladrilhos
e conte as palavras
não desperdice
não chore nem olhe para trás
e corra respirando com método com ritmo
sem jamais escorregar
até a morte.

De “Todos los amantes son guerreros” (1998)

*

IDA E REGRESSO

Lá em cima, tudo tem um ar de irrealidade
e você volta e se pergunta, com ingenuidade provinciana,
como é possível que o ar te sustente.
A essa pergunta costuma se juntar um leve calafrio,
um desejo de ser um pássaro real,
de voo alto e poucos pensamentos.
As nuvens não são exatamente nuvens quando se viaja.
Podem, inclusive, em certas circunstâncias,
se converterem em metáforas incômodas.
O tempo nos aviões se infla como um parêntese.
Dentro dele cabem memórias,
cartas que você nunca escreverá, diálogos falsos,
e essa lucidez fria que volta a nos evidenciar
de que somos animais da terra,
mamíferos inquietos
que na cidade sonhada já começamos
a ansiar por nossa casa
e ao voltar para esta
nos imaginamos na cidade sonhada.

De “Las herencias” (2008)

*

EM TECHNICOLOR

O amor tem várias cores:
o branco onde se escreve com tintas indeléveis,
o sol estridente do amarelo
e o verde onde crescem folhas,
bulbos devoradores, rosas vermelhas,
cactos cheios de espinhos e minúsculas
flores ardentes. E a dor?
A dor é violeta como um fruto que se abre e já se decompõe
com o coração negro,
queimado.
E o esquecimento
tem a cor daquilo que ao relento sofre,
um azul que se esgota,
um cinza que nos consome e nos alivia
como um inverno longo que no entanto sabe
que em breve a primavera voltará.

De “Las herencias” (2008)

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Piedad Bonnett é uma poeta e prosadora que nasceu em Amalfi, na Colômbia, em 1951. Publica poemas em livro desde os 38 anos e seu primeiro romance saiu quando ela tinha 50. É professora na Universidade de Los Andes, em Bogotá


Consulte a página de Piedad Bonnett no acervo de MUTUM
“A escrita é sempre uma forma de indagação”: entrevista com Piedad Bonnett
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