Ouça como os tigres se amam e a selva está cheia de suspiros profundos e a noite se rompe com seus relâmpagos ferozes. Veja como as estrelas giram na dança eterna da harmonia e seu silêncio é povoado de sussurros vegetais. Sinta o cheiro do mel espesso que as árvores destilam, o leite escuro que suas folhas expelem. O universo inteiro se trança e destrança em cópulas secretas e infinitas. Geometrias sábias, que entrelaçam as formas de caracóis dóceis e serpentes impiedosas. No mar, há um canto de sereias. Toque minha pele, trêmula e exposta aos espinhos, antes que o ritmo do meu sangue cesse, antes que eu retorne à água e à terra.
De “Círculo y ceniza” (1989)
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GUIA DE CEGOS
Toque toda a superfície das coisas. Passe a palma da mão pela madeira, sinta suas nervuras. Toque o bronze. Que a seda lhe dê sua água e o mármore conceda sua memória. Toque o cristal. Muito bem. O veludo, a doçura amolecida do tapete. Não, não olhe para o céu. A outros ele pertence.
De “El hilo de los dias” (1995)
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EDUCAÇÃO SENTIMENTAL
Aprenda a lição: mate os pássaros para evitar que ao vê-los voando em seu jardim queira voar. Depois feche os olhos para a paisagem. Ponha pele sobre pele e conte os ladrilhos e conte as palavras não desperdice não chore nem olhe para trás e corra respirando com método com ritmo sem jamais escorregar até a morte.
De “Todos los amantes son guerreros” (1998)
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IDA E REGRESSO
Lá em cima, tudo tem um ar de irrealidade e você volta e se pergunta, com ingenuidade provinciana, como é possível que o ar te sustente. A essa pergunta costuma se juntar um leve calafrio, um desejo de ser um pássaro real, de voo alto e poucos pensamentos. As nuvens não são exatamente nuvens quando se viaja. Podem, inclusive, em certas circunstâncias, se converterem em metáforas incômodas. O tempo nos aviões se infla como um parêntese. Dentro dele cabem memórias, cartas que você nunca escreverá, diálogos falsos, e essa lucidez fria que volta a nos evidenciar de que somos animais da terra, mamíferos inquietos que na cidade sonhada já começamos a ansiar por nossa casa e ao voltar para esta nos imaginamos na cidade sonhada.
De “Las herencias” (2008)
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EM TECHNICOLOR
O amor tem várias cores: o branco onde se escreve com tintas indeléveis, o sol estridente do amarelo e o verde onde crescem folhas, bulbos devoradores, rosas vermelhas, cactos cheios de espinhos e minúsculas flores ardentes. E a dor? A dor é violeta como um fruto que se abre e já se decompõe com o coração negro, queimado. E o esquecimento tem a cor daquilo que ao relento sofre, um azul que se esgota, um cinza que nos consome e nos alivia como um inverno longo que no entanto sabe que em breve a primavera voltará.
De “Las herencias” (2008)
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Piedad Bonnett é uma poeta e prosadora que nasceu em Amalfi, na Colômbia, em 1951. Publica poemas em livro desde os 38 anos e seu primeiro romance saiu quando ela tinha 50. É professora na Universidade de Los Andes, em Bogotá