Night in Nice (1891), Edvard Munch. Artvee/ Domínio público
EIXO
Alguém, nessa noite, pensa em ti com tal força que desvia o curso da flora. Poderiam, ambos, retificar o uso dos sistemas: letra, número, intenção ou gesto nessa fração noturna, não são mais do que celas em desalinho. Saquem os apetrechos. Não importa a contenda que se arma – às armas. O que julga saber e os que julgam são uma esteira, apenas, para a mudança da flora. Nessa noite, em que alguém pensa forte em ti e absorves o pensamento imenso, nessa noite, o que nunca pudemos ser está pronto.
De Guelras (2016)
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SÃO JOÃO DA CHAPADA
Ainda se travam lutas sob a inelutável.
Jeito de olhar o infortúnio não é o mes- mo, se não foi o mesmo o jeito de viver. Quem nada tinha aumentou o patrimônio. Os não haveres ocupam mais cornijas que as apólices dos senhores.
No córrego da Formiga é dar-se com Antônio Moange. Fugas recebimento de cargas. Em assunto grave, mudar para a Maquemba. Os de tiricínio preferem a Madalena; os que não querem morrer, o lugar mais que o nome.
A boca dentro do ouvido se possível dentro da noite. O que se diz na praça vale metade. Defendido na sua rede um faz seu carvão sua promessa. Coisa de nada, que o destino é avaro.
De Sete selado (2003)
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NOTURNO
Se os poetas a temeram no passado – um por imaginá-la indo à morte por tocar a esfera e outro por intuí-la no calor da cidade estranha – por que não exibiria o horror nas pupilas o recém chegado Um pardal furioso desce sobre os farelos. Ao seu impacto, o menino cresce. Logo os pombos lutam pelos restos. A infância se enerva. Uma boca derrama os seus amaros signos. Não é a bruxa o morcego não é e nos perturba. A boca que rediz não sutura os pássaros. O seu guia é contrário à paz das almas.
De poesia + (2019)
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RÉQUIEM
Os formões rendidos exasperam os conformados. A noite adia suas hordas: chance há para comércio dos esquecidos. E o pó (lira do ocaso) diverte sem canto algum. Os formões giram ameaçados: soa mais o siléncio em cima do oboé. A hora vigia, ileso, O corpo ama.
De Corpo vivido (1991)
Edimilson de Almeida Pereira nasceu 1963, em Juiz de Fora, Minas Gerais, sudeste do Brasil. É poeta, ficcionista, ensaísta e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).