Grande ensaio sobre a máquina de escrever

uma lista de Ariel Luppino

Klänge Pl.06 (1913), Wassily Kandinsky. Artvee/ Domínio público

Segundo Laiseca, Marcelo Fox morreu decapitado pelo trem da Companhia Ferroviária Mitre na Estação Belgrano.

A partir desse fato pude tirar uma série de conclusões.

1. Os textos não são escritos com ideias, mas com frases: primeiro uma, depois outra e assim por diante.

2. Há uma lógica do fora e há uma lógica do dentro, mas não se pode compreender o dentro com a lógica do fora. Em sua maioria, os problemas literários são problemas topológicos.

3. Existe uma concepção da escritura que é de ordem composicional. Não se trata de pensar a escritura como música, mas de entender que ambas são expressões formais.

4. A palavra “literatura” não permite pensar a escritura.

5. O fim da literatura não é mais que o fim de certa concepção ambígua e difusa da escritura.

6. Escrever não se reduz a narrar ou a contar.

7. Não é possível sustentar ideologicamente o que não funciona em termos formais.

8. Um texto nunca conta uma história, mas maneiras de contar.

9. O autor não morreu: é preciso decapitá-lo.

10. Só há a escritura. Nunca houve outra coisa.

11. Não se escreve um texto para ser entendido, mas para ser afetado por uma forma.

12. Deveríamos deixar de falar da escritura para começarmos a falar das escrituras.

13. A palavra “reler” deveria ser proibida: nunca “já” lemos um texto.

14. O que se explica está perdido: não há nada que explicar. Que entenda quem puder!

*

Ariel Luppino nasceu em 1985, em Monte Grande, Argentina. Dono de um projeto singular e proliferativo, publicou novelas, ensaios e relatos.


O texto acima é um fragmento de A outra vida (2024), traduzido por Joca Reiners Terron e publicado pela editora Numa.

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