Um mendigo vê o sonho da Terra

conto de Joca Reiners Terron

L’Origine du monde, 1866. Crédito: Artvee/ Domínio público
       Um mendigo vê o sonho da Terra numa pedra transparente que pende do clitóris de uma prostituta: o sonho da Terra que vou contar envolve Jacques Lacan, e não importa que seja apócrifo, algo que vou inventando à medida em que escrevo estas palavras, pois é um sonho que a Terra sonha através de mim. Lacan foi o último proprietário de A Origem do Mundo, a pintura de Courbet. Talvez seja inútil recordar que a pintura exibe uma vulva e o ventre de uma mulher deitada de pernas abertas. Anos antes de se desfazer do quadro, doado ao Musée d'Orsay, o psicanalista decidiu realizar uma experiência. Primeiro, dispôs A Origem do Mundo detrás de um biombo de laca com motivos chineses, diante do qual instalou um telescópio apontado para um furo no biombo. A ideia era convidar homens para observarem A Origem do Mundo pelas lentes do telescópio. Os convidados, compostos na maioria por artistas e amigos de Lacan, formaram uma longa fila que se estendia da frente da casa de campo onde ele vivia, passava pela escadaria em caracol até culminar no cômodo superior aonde ficava o quadro. Quando chegava sua vez, o afortunado dobrava a espinha, encaixava seu melhor olho na lente ocular e ali permanecia por quinze segundos. Uns diziam palavrões, outros soltavam suspiros e dois ou três caíram no pranto, ao terminar seu tempo de observação. Encerrada a visão da origem, todos se afastavam igualmente em direção à saída, sob rigoroso silêncio. No entanto, dentre os convidados ninguém sabia que Lacan contratara uma prostituta cuja vulva, coberta de farta pelagem negra, era idêntica à da pintura, e que essa prostituta, apenas em uma ocasião, diante de um único afortunado dos afortunados, ocuparia secretamente o lugar de A Origem do Mundo, entreabrindo as pernas de modo a permitir um vislumbre de suas profundezas ampliadas pelas lentes poderosas do telescópio. Por seu lado, Lacan não sabia que entre os convidados havia um infiltrado, um mendigo miserável que, atraído pela aglomeração, juntou-se à fila. Também desconhecia Lacan, que com seu pudor não examinara a intimidade da jovem, o fato de ela carregar uma pedra transparente num anel que perfurava seu clitóris, presente de um antigo amante oriental. Ao chegar a vez do mendigo, detrás do biombo a prostituta substituiu o quadro, e ao sinal do psicanalista, que estranhou um pouco o mau estado daquele convidado, entreabriu as pernas por alguns segundos, apenas uma brecha de carne e pelos. O jogo de reflexos dos espelhos do telescópio conduziu o olhar do mendigo pelo rubro âmago da prostituta e lá ele vê o sonho da Terra, no qual lava borbulha e escorre ao oceano, aquecendo as águas e produzindo vida, um girino rasteja até a terra, criando membros e tetas, engatinhando e escalando árvores das quais baixa e caminha um macaco ereto por savanas pelas quais copula e então o desavisado mendigo se vê a si mesmo brotando de outra vagina, a de sua mãe. Ela o embala e o amamenta nos seus gordos peitos brancos. O mendigo sente o perfume azedo do corpo dela. Mas eis que um homem a mata a pauladas. O mendigo cresce, bebe, dorme na sarjeta, morre e é enterrado. Vermes comem sua carne, seus ossos se metabolizam em pedra que viram fósseis. Ele derrete na forma de um combustível preto e oleoso. Agora o mendigo é uma gota de diesel no tanque de um avião que despeja bombas sobre uma cidade repleta de mulheres e crianças. Ao ver o mendigo aferrado ao telescópio, trêmulo como um eletrocutado aferrado ao relâmpago, Lacan interveio. Mas o homem, sem dizer nada, abalou-se pela escadaria abaixo, aos gritos, e se enfurnou na escuridão dos bosques fechados ao redor da casa.
Nunca mais se soube dele, até que a Terra o sonhou através de mim neste instante.

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Joca Reiners Terron nasceu em Cuiabá, em 1968. Escritor, poeta, dramaturgo e editor, publicou, entre outros, Do fundo do poço se vê a lua (Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, 2010), Noite dentro da noite (2017), A morte e o meteoro (2019) e O riso dos ratos (2021).


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