Perdendo velocidade

conto de Samanta Schweblin

The Prettiest Circus in the World, Rafael Barradas. Crédito: Artvee

TEGO PREPAROU OVOS MEXIDOS, mas quando finalmente sentou à mesa e olhou o prato, percebeu que não podia comer.

“O que aconteceu?”, perguntei.

Ele demorou para tirar os olhos dos ovos.

“Estou preocupado”, disse. “Acho que estou perdendo velocidade.”

Mexeu o braço de um lado para o outro, de uma forma lenta e exasperante, suponho que de propósito, e ficou me olhando como se esperasse meu veredito.

“Não tenho a menor ideia do que você está falando”, eu disse. “Ainda estou meio dormindo.”

“Não viu como demorei para atender o telefone? Para ir até a porta, para tomar um copo d’água, para escovar os dentes… É um martírio.”

Houve um tempo em que Tego voava a quarenta quilômetros por hora. O circo era o céu; eu arrastava o canhão até o centro do picadeiro. As luzes ocultavam o público, mas podíamos ouvir o clamor. As cortinas aveludadas se abriam e Tego surgia em seu capacete prateado. Levantava os braços para receber os aplausos. Seu traje vermelho brilhava sobre a areia. Eu me encarregava da pólvora enquanto ele subia e metia seu corpo delgado dentro do canhão. Os tambores da orquestra pediam silêncio e tudo estava em minhas mãos. Ouvia-se apenas o barulho dos saquinhos de pipoca e alguma tosse nervosa. Eu tirava os fósforos do bolso. Deixava-os em uma caixa de prata que tenho até hoje. Uma caixa pequena, mas tão brilhante que era possível vê-la da última fila da arquibancada. Eu abria a caixa, tirava um fósforo e o apoiava na lixa na base da caixa. Nesse momento todos os olhares estavam voltados para mim. Com um movimento rápido, o fogo aparecia. Eu acendia o pavio. O barulho das faíscas se espalhava por todas as direções. Eu dava alguns passos para trás, atuando e dando a entender que algo terrível estava para acontecer — o público atento ao pavio que queimava —, e de repente: bum! E Tego, uma flecha vermelha e brilhante, era disparado a toda a velocidade.

Tego deixou de lado os ovos mexidos e com esforço se levantou da cadeira. Estava gordo e velho. Respirava com um ronco pesado, porque a coluna apertava não sei qual dos pulmões, e se movimentava pela cozinha usando as cadeiras e o balcão de apoio, parando a cada minuto para pensar ou descansar. Às vezes simplesmente suspirava e seguia adiante. Caminhou em silêncio até a porta da cozinha e então parou.

“Acho mesmo que estou perdendo velocidade”, disse.

Olhou para os ovos.

“Acho que estou quase morrendo.”

Puxei o prato para o meu lado da mesa, apenas para irritá-lo.

“Isso acontece quando se deixa de fazer o que se sabe fazer melhor”, continuou. “Andei pensando nisso, morrer é bem possível.”

Provei os ovos, mas já estavam frios. Foi a última conversa que tivemos; depois disso, ele deu três passos desajeitados em direção à sala de estar e caiu morto no chão.

Uma repórter de um jornal local veio me entrevistar alguns dias depois. Assino uma fotografia para a nota em que eu e Tego estamos juntos do canhão, ele com o capacete prateado e seu traje vermelho, e eu de azul, com a caixa de fósforos na mão. A moça fica encantada. Quer saber mais sobre Tego, me pergunta se tem alguma coisa em especial que eu queira falar a respeito da morte dele, mas já não tenho vontade de continuar falando disso, e nada me ocorre. Como ela não vai embora, ofereço alguma coisa para beber.

“Café?”, pergunto.

“Claro”, ela diz. Parece disposta a me escutar por uma eternidade. Eu risco um fósforo contra minha caixa de prata para acender o fogo várias vezes, e nada acontece.

*


Samanta Schweblin é uma contista e romancista nascida em 1977, em Buenos Aires, Argentina. Escreveu os livros “Pássaros na boca”, “Sete casas vazias”, “Distância de resgate”, “Kentukis” e “O bom mal”, todos traduzidos para o português. É tida como uma das escritoras mais inventivas da atualidade. Vive na Alemanha.


O conto acima, traduzido por Joca Reiners Terron, foi publicado no livro Pássaros na boca pela editora Fósforo, que gentilmente autorizou a publicação.