Por onde eu tropeço sozinha

Poemas de Norah Lange

“Patio Porteño” (1860), Prilidiano Pueyrredón. Crédito: Artvee

Norah Lange (1905–1972) foi uma das figuras centrais da renovação poética argentina nas décadas de 1920 e 1930. Próxima do círculo da revista Martín Fierro e do chamado Grupo Florida, participou de um ambiente literário que buscava romper com os modelos herdados do século XIX e experimentar novas formas de expressão. Sua poesia inicial, reunida em livros como La calle de la tarde (1925) e Los días y las noches (1926), explora cenas mínimas do cotidiano, paisagens urbanas e estados de recolhimento, sempre com uma linguagem de grande economia e força imagética.

Nos poemas a seguir, a cidade, a tarde, a praça e a lembrança surgem como espaços de silêncio e de espera. Lange trabalha com imagens breves e delicadas, nas quais a experiência íntima se mistura às variações da luz, das horas e da paisagem.



TARDE A SÓS
Vazia a casa onde tantas vezes
as palavras incendiaram os cantos.
A noite se antecipa no piano
mudo que ninguém toca.

Vou sozinha de lembrança a outra
abrindo as janelas
para que seu nome povoe
a mísera quietude desta tarde a sós.

Ninguém mais paralisa as horas sem fim
fechadas a toda minha alegria.

E sua lembrança é outra coisa
vasta e quieta
por onde eu tropeço sozinha.

E minhas pulsações formam uma fileira
de pegadas que vão
desde sua porta até o esquecimento.

De “Los días y las noches” (1926)

*

AURORA

Lâmpada enredada
num caminho de horizontes.
Depois, ao meio-dia,
no poço o sol se suicida.
A tarde, feita em retalhos,
suplica estrelas.
As lonjuras recebem o sol
sobre seus braços em chamas.
A noite se benze ante o poente.
Desperta a angústia de uma espera
e ainda não chegou a hora.

De “La calle de la tarde” (1925)

*

VERSOS A UMA PRAÇA
A tarde morre como uma eremita.
Sobre as costas da noite
o céu estremece, apertado de estrelas.

A noite crispada e lenta
se apega às luzes,
pequenas e suaves como uma lua nova.

Praça: sobre seu umbral de sombras
sua voz sobe como uma cantilena
até o silêncio de suas árvores.

Os caminhos são frêmitos de alegria
sob a labareda azul de tanto céu.
A cidade se rompe, brusca,
contra suas esquinas verdes.

De Versos a una plaza (sem data definida)


Consulte a página de Norah Lange no acervo de MUTUM
Leia mais criações literárias em Imaginações