Poemas de Ricardo Güiraldes (e uma homenagem de Jorge Luis Borges)

Ricardo Güiraldes (1886–1927) ocupa um lugar particular na literatura argentina do início do século XX por aproximar a tradição criolla das experiências estéticas do modernismo portenho. Vinculado ao círculo da revista Martín Fierro e ao chamado Grupo Florida, o autor costuma ser associado sobretudo a Don Segundo Sombra (1926), romance que transformou o universo do gaúcho em matéria de elaboração literária moderna. Sua obra, porém, não se limita ao pampa argentino. Em poemas em prosa escritos a partir de viagens pelo Caribe, Güiraldes volta o olhar para portos, mercados e paisagens tropicais. Registrou a presença de trabalhadores negros, o ambiente colonial e episódios ligados à Primeira Guerra Mundial, como a partida de contingentes jamaicanos para o front europeu. Os textos a seguir pertencem a esse ciclo: peças breves em que a observação sensorial, a intensidade das imagens e a prosa de ritmo poético captam cenas do cotidiano caribenho e as transformam em matéria literária.
INTIMIDADE
A madrugada está falando em cristais sua tímida toada de prata.
Acordei pra escutar uma palavra que ignoro.
Você dorme a meu lado e vossa presença explica a intimidade.
Surpresa quotidiana da presença de você…
Vossa boca é nua e carnuda que nem a flor pela qual ama a planta.
Uma bruma luminosa exala da vossa fronte. Vossos olhos se alargam com sombras profundas que são a noite do cansaço de você.
Por debaixo dos meus lábios o contorno forte de vossa boca nasce imensamente.
Você vai acordar. Hei de ver entre vossas pestanas nascer o milagre fluente do olhar.
Porém você esconde a cara no meu peito e me diz levianinho:
– Não me olhe assim.
Então durmo porque não posso olhar você.
*
MERCADO DE MONTEAGO
Sob os zincos do mercado de Monteago um calor grosso mistura o cheiro da fruta e do legume.
A gente está como afogado na água verdenta dum tanque cheio de germinações primárias.
Na sombra, viva de tão consistente, se agita uma negralhada colorida.
Odeio essa gente que com o mexe-mexe dela me tira um bocado de vossa presença.
Alvorota o ambiente uma bulha sem parada de ofertas e pedidos.
As dobras das roupas brancas guardam listras de sombra fresca talqualmente veios de água.
Ponho reparo que os vossos olhos fogem dos suores vegetais exalados dos postos. Vosso pescoço, pulsos, a cintura se relaxam de calor.
Vamos embora!
As ruas trilam sons calcários de Sol.
Recostando nos muros descansam jericos petiços carregados com bruacas. As formas cinzentas deles se diluem como borrões de vida mansinha contra a cor gredosa das pedras murais.
Vamos embora pro hotel ver se dentro dos quartos fechados a gente acha um bocado de sesta.
*
PARTIDA DE JAMAIQUINOS
Do porto de Kingston varrido pelo vento que desnuda as palmeiras, vai embora pra guerra européia o quinto contingente jamaiquino.
Letreiros, gritos heróicos pra animar risadas-rictus nas bocas brancas e grandes. Lenços de despedida.
O brinquedo de soldadinho conclui numa realidade angustiosa.
Jamaica fica no marzinho Caribe com os canaviais os coqueiros as cascatas risonhas feito bocas nacarinas de africanos, as costas arqueadas em redor da frescura
No distrito de Sant’Ana, assentado num cerro liso opalina das baías com remansos azuis e sombras fundas, um papiri se extasia com a serenidade límpida do vale. Os dias vão se seguir por sobre a morada quieta. O pai há de sair com o facão de cortar cana em busca de soldo mínimo e na barba cinzenta dele os fios de prata hão de aumentar feito lapos de dor. A mãe há de ficar tratando da chacra miserável cujas frutas levará pro mercado de sábado no jerico manso por debaixo das bruacas de palha cor-de-marfim atapetadas.
Na memória cheia de escureza dos velhos, talqualmente cipós retorcidos reverdecerão lembranças antigas de histórias. A raça pra pagar o tributo a um povo de conquistadores teve de vir da terra dela, lá longe, patriarcal.
Os velhos, que nem os filhos, deram sangue pelos outros.
O contingente parte.
Já o destino aponta a proa na direção dos combates brutos dos países civilizadores, ávidos, como comerciantes, de poder e de riqueza.
Toparão lá com os campos vazios arados pelo ferro fabricado pra morte.
Da massa preta dos músculos os projéteis farão um líquido encarnado.
Cunhas de morte, grandes, fenderão a tropa inconsciente. Em riba dum escombro de cerro que granada esmigalhou, uma sobra podre de ataque combaterá grudada desesperadamente no naco de vida que resta pra ela.
O silêncio em redor será o silêncio eterno do contingente jamaiquino.
No morro, o sobrevivente derradeiro fará um rictus definitivo pra morte branca, com os beiços muito estendidos, dente à mostra. Assim a lua poderá lhe dar bem na boca um enorme beijo de osso.
Ricardo Güiraldes
de Jorge Luis Borges
Ninguém poderá esquecer sua cortesia; era aquela não buscada, a primeira
forma de sua bondade, a verdadeira
cifra de uma alma clara como o dia.
Tampouco hei de esquecer a elegante
serenidade, o rosto fino e forte,
as luzes da glória e da morte,
a mão interrogando o violão.
Como no sonho puro de um espelho
(tu és a realidade, eu o reflexo)
te vejo conversando conosco
em Quintana. Aí estás, mágico e morto.
Teu, Ricardo, agora é o campo aberto de ontem, a alvorada dos potros.
“Elogio da sombra” (1969)
Consulte a página de Ricardo Güiraldes no acervo de MUTUM
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