O modernismo argentino por um modernista brasileiro

Crônicas de Mário de Andrade

O texto a seguir reúne quatro artigos que Mário de Andrade (1893–1945), um dos principais articuladores do modernismo brasileiro, escreveu sobre a literatura moderna argentina da década de 1920. Publicadas no jornal “Diário Nacional”, as crônicas registram o olhar perspicaz de Mário sobre a produção literária do país vizinho, as tensões nacionalistas da época e as diferenças das experiências vanguardistas na América do Sul. O humor e a ironia peculiares à sua personalidade marcam o ritmo do texto, mas o tom predominante é de admiração pela efervescência literária dos vizinhos. Mário elege escritores, revistas e trechos de obras que merecem atenção. Publicamos aqui e em nossa seção Imaginações parágrafos e versos traduzidos de algumas das autoras e alguns dos autores citados. (As notas de rodapé também são de MUTUM.)


1.

(22 de abril de 1928)

Entre as literaturas modernas da Argentina e do Brasil vai uma diferença grande. Mesmo tão grande que me parece difícil a gente se compreender integralmente. A gente pode muito bem recriar pela inteligência as musas e os elementos que levaram o outro país a adquirir o ritmo que organiza a literatura modernista. E como esse ritmo é lógico e está sendo movimentado com segurança, a gente compreende e admira a força dos que o organizam. Porém, como esse ritmo não é o da gente e não interessa com ajuda nem completamento, ele não vem fazer parte de nós mesmos. E por isso não desperta compreensão integral mais constante e imediata que a intelectual.

Essa observação me parece importante e falarei porque. Porém, antes quero pontuar o i de una coisa. Se falo que o ritmo organizador da literatura de um dos nossos países não “faz parte” da psicologia do outro, é porque certos ideais de americanismo e latinoamericanismo não conseguem interessarme. Tem coisas que sou obrigado a conceder porque afinal das contas certa visão acomodada do mundo obriga mesmo a gente a largar mão de umas tantas noções que pelo menos por enquanto não é possível tornar práticas. Por isso admito o conceito político de pátria, embora ele me repugne. Mas repudio todo e qualquer “patriotismo” que se manifeste política ou idealistamente. Do patriotismo só compreendo o gesto que se resume no trabalho imediato por aquela raça e parte da Terra que nos interessam diretamente porque vivemos nelas. Tudo mais parece de um romantismo pesadão e sobretudo desumano. Enquanto a noção de “fraternidade” não desaparecer da argumentação humana, não seremos senão egoísmos enormes se odiando.

Mas todo e qualquer alastramento do conceito de pátria que não abranja a humanidade inteira me parece odioso. Tenho horror a essa história de “América Latina” muito agitada hoje em dia.

“¡Hispano-americanismo, cuántas estupideces se hacen y dicen en tu nombre!” (Martín Fierro1). Tenho horror a Pan-americanismo. Noções, aliás, que na Europa já acharam rival na idealizada República Européia2… Não existe unidade psicológica ou étnica continental. Mesmo aceitando só para argumentar que as condições históricas e econômicas sejam absolutamente iguais nos países de um continente, isso não basta para a criação de um conceito social continental porque não são condições permanentes nem intrínsecas.

Então se a gente assunta a realidade põe logo reparo que mesmo dentro de um movimento histórico e econômico mais ou menos continental como o da América, os elementos, as necessidades, as condições diferem formidavelmente de país para país. Considere-se, por exemplo, Estados Unidos, Argentina e Chile, três países de incontestável bem-estar americano de progresso. Tudo neles difere desde os valores objetivos até os de essência idealista. W. Mann3, alvejando outra cousa em Volk und Kultur, o que esclareceu bem foi isso…

Mas falei em diferença grande entre as literaturas modernistas brasileira e argentina. Ora essa observação preliminar me parece importante sob o ponto de vista da psicologia nacional. Estamos incontestavelmente num período americano (e até universal) em que a preocupação de nacionalização domina. Escrevendo para brasileiros não careço de argumentar como o Brasil desandou para um nacionalismo desbragado, às vezes caindo num patriotismo de bofafá4, que afinal das contas ainda é a tolice da “criança, nunca verás país nenhum como este”5.

Na América do Norte basta lembrar que estão preocupados em refinar o homem nacional yankee, adotando critérios de imigração mui tendenciosos. Além disso, um livro como Americana6, de Mencken, prova imediatamente o nacional consciente e vaidoso da nacionalidade, se comprazendo com todas as manifestações dela, risíveis ou nobilitadoras.

No México, a preocupação nacional domina fortemente, forçando uma tradição ameríndia para o país.

No Peru, apesar de ter percorrido apenas a parte oriental e menos progressista do país, pude constatar pessoalmente a mesma coisa. E dolorosamente, porque nunca sofri manifestações de ódio tão veementes como as do peruano contra o chileno que o venceu e contra a Colômbia que deseja porto no Solimões. Resultou disso uns namoricos fictícios com o brasileiro, a quem interessa logicamente a navegação comercial do rio. “Namoricos fictícios” porque, socialmente, no rincão da Sulamérica o Brasil é um estrangeiro enorme. O [i.e. “É”] homem de outra raça, outro passado e outra fala — razões de incontrastável afastamento, no mais.

Na Argentina, o caso do meridiano intelectual passando por Madrid, que La Gaceta Literaria7 propôs, provocou principalmente da rapaziada de Martín Fierro uma reação violenta mas sadia. Está claro que uma proposta dessas é de uma petulância ridícula. Como falaram muito bem Jorge Luís Borges e Nicolás Olivari, na literatura argentina moderna, tem muito mais influências francesas e italianas que espanholas. E, com efeito, a gente nota que a própria influência de Ramón Gómez de la Serna8, possível de ser reconhecida em certos argentinos, é muito mais estilística que propriamente intelectual. Não se manifesta nos motivos de inspiração lírica ou na organização intelectual dela. Deriva, pois, menos da própria personalidade do espanhol que daquilo em que a maneira dele coincide com certas tendências universais.

A proposta ridícula dos espanhóis não merecia o interesse que lhe deram os moços argentinos. Dedicaram muitas páginas a essa questão inócua. Porém, com exceção rara de algum patriotismo desprezível, todas as respostas foram de franco divertimento, dotadas daquele espírito burlon que caracteriza os martinfierristas e que também um tempo tornou insuportáveis para o público brasileiro os guampaços da Klaxon9.

E ainda a prova de que a América toda se preocupa com a nacionalização dela está no trabalho das línguas. Pode-se dizer que o repúdio das línguas mães, inglês, espanhol, português, manifesta-se em todas as nações americanas. 

E na maneira com que isso está se manifestando, já se principia distinguindo diferenças entre as literaturas modernistas brasileira e argentina.

A Argentina, devido à força concentradora de Buenos Aires e à unidade geográfica, me parece que já possui, mais ou menos, um caráter psicológico chegado a esse estádio de evolução que se determina pela inconsciência nacional. 

Aqui no Brasil, a gente ainda está muito conscientemente brasileira e nisso me parece que não progredimos muito sobre José de Alencar. As dificuldades são aqui muito maiores e talvez mesmo intransponíveis. A nossa variação geográfica é tão grande que me parece que todo brasileiro desejoso de ser brasileiro tem de o ser mais ou menos conscientemente. Inda para acentuar mais essa variedade geográfica, o país sofre uma desarmonia de progresso formidanda.

Cousa que não se dá na Argentina. O argumento de que ela inclui a Patagônia não tem valor porque não existe para o argentino o problema patagônico, que nem existe para a gente o problema amazônico, pra citar o mais penoso. A Argentina, para existir como que faz abstração da Patagônia. Uma prova disso é a inexistência quase absoluta da Patagônia na literatura de lá. 

Patagão só aparece em Julio Verne. A civilização das partes meridionais regeladas é para o argentino questão de mais ou menos dias, maior ou menor expansão nacional. Está claro que os norte-americanos não vão desejar aquilo, nem os chilenos povoá-lo primeiro… Entre nós, a Amazônia pesa fundamentalmente como valor político, econômico e emotivo.

Quando falam que a Argentina é um grande país e Buenos Aires uma grande capital, falam duas verdades incontestáveis. Isso dá aquela calma necessária de si mesmo, aquela confiança na terra e no patrício que são os elementos mais úteis para determinação, firmação e permanência dos caracteres psicológicos. Ninguém não é tão si-mesmo como em casa. Casa própria. Que o digam os pregos e as paredes… O argentino, consciente da grandeza dele e auxiliado por ela, já possui a confiança de quem está na própria casa e a calma de quem está no próprio quarto. Pouco se amola desse argentino de dentro possuir tal dose de italiano, tal dose de espanhol, etc. E tal dose de argentino. Tudo isso já é para ele mais ou menos indiferente. Não porque raciocine que de fato as entidades nacionais coincidem em vários pontos, mas porque está bem seguro de si. Mesmo ele quase nunca matuta sobre isso porque não carece mais de reagir.

Para reconhecer o que sinto, basta comparar os amazonas de tinta que os modernos do Brasil fazem correr a respeito de brasilidade e a ausência quase absoluta disso nos livros e revistas modernas da Argentina. Só o nome de Martín Fierro é tendencioso.

Aqui tivemos Terra Roxa10 e temos Verde11. Mas os martinfierristas não fazem parada de nenhuma orientação nacionalizante. Aqui possuímos gente “verde”, gente “verde-amarela”, gente “pau-brasil”. E há livros que chamam-se Meu, Rafa, Toda a América, Pau Brasil, Minha terra, Terra impetuosa, Coração verde, Brás, Bexiga e Barra Funda, Clã do Jaboti, etc., etc., os argentinos secundam no geral com La musa de la mala pata, El contador de estrellas, Terremotos y otros temblores, El puñal de Orión, Pasos en la sombra, Inquisiciones, El cencerro de cristal, Calcomanías, Naufragios, etc., etc. Don Segundo Sombra foi uma afirmação nacionalista. Mas foi uma afirmação esplêndida.

Ora, a confiança do argentino e a insegurança do brasileiro caracterizam o jeito diferente com que estão sendo tratadas as falas nacionais. 

Afirmativas como “Nós falamos argentino”, “Nossa fala já não é mais castelhano”, a gente encontra às vezes em livros e revistas.

Ora, sucede que a fala aparecida lá, embora fortificada de longe em longe por algum argentinismo, vai sem pressa, sem reação nem pesquisa, ficando fala argentina e não mais fala castelhana. Mas isso, sem a mínima inquietação. A fala argentina ainda se identifica com o castelhano.

Ora, aqui o que caracteriza os modernos, trabalhando a fala brasileira, é justamente a inquietação. Não nego que também aqui muita gente afirme falar brasileiro (prefácio de Paulicéia desvairada) e continue escrevendo duma maneira geral que virtualmente ainda é o português. Mas aqui teve um grupo que se lançou abertamente no trabalho de conquistar uma fala para a gente e é incontestável que esse grupo acaparou o problema e domina a questão.

Foi esse grupo o culpado de tomar o problema com esse aspecto de vida ou de morte que ele tomou, quando de deveras é problema sem importância fatal e que resolve-se por si mesmo com mais ou menos tempo, mais ou menos inconsciência nacional.

Mas também carece observar que, se esse grupo tem a culpa do que sucedeu, ele ficou sempre acima do problema e foram os que o atacaram ou simplesmente o discutiram ou simploriamente se despeitaram por não terem sido consultados, que desvirtuaram-lhe a importância, engrandecendo-a exageradamente.

Ao mesmo tempo que, pela sistematização duma piracema-mirim de modismos, os que passaram sem base larga para o mesmo eito, exageravam e punham à mostra a fraqueza duma fala brasileira possível, em relação à fala comum do brasileiro culto comum. Fala esta identificável ainda com o português.

Mas essa não foi a intenção dos iniciadores do movimento, não. Que a inquietação dominava-os, é indiscutível. Porém, uma inquietação que até maneiras cômicas de se manifestar tomou. Que nem certas páginas de graça enorme das Memórias sentimentais12. Inquietação que até uma máscara de calma prudencial tomou. Que nem com a solução de Alcântara Machado13.

E se o mais exagerado e mais dado em artigos sucessivos de inquieto fui eu, tomei logo o cuidado de avisar que não tínhamos que reagir contra Portugal, que a coincidência com a língua portuguesa não prejudicava a realidade já individualizada da nossa e sobretudo que o problema de abrasileirar o Brasil culto não se resumia a colecionar, amalgamar e estilizar regionalismos gaúchos, caipiras, praieiros, nordestinos ou tapuios. Tudo isso não era senão consequência dum problema muito mais complexo que compreendia a cultura nacional em todas as manifestações imagináveis dela.

Ora, esta inquietação e consequente reação não existe na literatura modernista argentina. Os argentinos não campearam um jeito de falar argentino; em vez se contentaram de falar para a Argentina.

Podem argumentar contra, que também aqui uma maioria se contenta com isso. O argumento não vale porque foram os extremistas que botaram o problema dançando entre os modernistas daqui. (Aliás entre todos, porque mesmo livros como A língua nacional14 ou O dialeto caipira15 são puras especulações teóricas: pregavam uma cousa16 que não faziam). O mérito dos extremistas foi se meterem praticando o que os outros não tiveram a coragem de praticar. Não tiveram e não têm por causa de serem mui cuidadosos de suas pessoas e fazenda e não terem o orgulho capaz d’um sacrifício pessoal nem temeridade para um trabalho ingrato e problemático.

Para esses, o problema por assim dizer não existe. Basta estudar um bocado a literatura deles para perceber que no fundo continuam escravos pamonhas e servis das gramáticas de Lisboa. Porque, afinal das contas, não basta a gente condimentar a escritura com a especiaria d’um modismo vocabular para que o prato seja tutu. Continua cozido e não tutu.

Ora, eu tiro destas afirmativas uma verificação que satisfaz bem. Se é verdade que a diferença não essencial nem muito característica de condições materiais concorre para dar maior calma para os argentinos e maior inquietude para a gente, me parece que essas condições não bastam para explicar a diferença com que o mesmo problema se manifesta nos dois países entre gente de mesmos ideais.

Essa diferença provém de mina mais profunda. Provém de possuirmos psicologia diferente. Ora, se em condições históricas, morais, étnicas, tradicionais, materiais, mais ou menos idênticas, dois países americanos e vizinhos se diferençam tanto, isso prova que, se a psicologia nacional de ambos não é inconfundivelmente original, pelo menos já é própria.

Esta afirmativa adianta muito pouco para os argentinos, que estão bem confiantes de si. Aliás este meu estudo é para brasileiros, está se vendo. Pois para os brasileiros me parece que a verificação adianta muito.

Verificado e afirmado que o brasileiro já possui psicologia própria, o problema de abrasileiramento do Brasil não desaparece porém assume uma realidade feliz que não possui agora. Essa verificação tem ainda o mérito de tomar ridículos e idiotas todos esses espertinhos pegadores de andorinha, mas ignaros e apressados porém, que vivem de patriotada em patriotada gritando ou mostrando pensar em “Eu que sou brasileiro!”, “Eu é que estou sendo brasileiro!”, sem a mínima compreensão humana nem da vida nem do Brasil. Geniozinhos exclusivistas, sensitivas por ignorância e miopia carece que saibam que o Brasil não foi feito por ninguém. Brasil é uma fatalidade que a gente pode melhorar ou piorar, esfacelar ou conservar, com psicologia já própria e fatal, através e apesar de todas as pesquisas conscientes.

Terminada esta introdução útil, creio que na crônica próxima já vou entrar numa enumeração mais objetiva da literatura modernista argentina. Eu não tenho erudição dela nem mesmo conhecimento vasto. É possível que vá exaltar valores que passam despercebidos lá ou não são de deveras valores. Esses enganos e muitas confusões são fatais em quem como eu conhece pouco aquilo e que vai falar. Porém não se trata dum estudo que vá beneficiar a ninguém. É um carro-estandarte honesto, para brasileiros, duma literatura que me parece, sob muitos aspectos, notável e digna de ser mais conhecida aqui.

Capas da revista argentina Martín Fierro, citada com entusiasmo por Mário.

2.

(29 de abril de 1928)

A literatura argentina possui vida coletiva muito forte. Os grupos práticos publicando livros e revistas.

Com todas as diferenciações que a personalidade traz para cada um, sempre se pôde distinguir lá muito melhor os agrupamentos. E vão logo objetivando a ação não apenas nos mutirões dos bares mas por médio de publicações. Possuem uma consciência social bem forte que é uma prova nobre da vitalidade intelectual do país. Se o perfume de tudo isso nem sempre é excepcional pelo menos a ventania é constante.

Não é que nem aqui onde cada um antes de mais nada vive polindo a vaidosidade de ser independente (como si o fossem…) e onde, com exceção de grupinhos mais de camaradagem que de ideias cada qual vegeta num isolamento individualista e chué. Chué porque numa ausência indigente de ideias vivemos nos alimentando de ideais vagos e sentimentais. Daí o nosso lirismo exacerbado e oratório que se é porventura mais rico em variedade e vibração, continua sem valor social e sem profundidade.

Desta nossa apregoada liberdade nasce ainda um desperdício muito prejudicial. As revistas literárias não passam do quarto número17. Atualmente possuímos só duas, Verde e Festa, quando São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife pelo menos, podiam com os modernistas que possuem, manter mensários também.Na Argentina já apareceu e aparece um poder de revistas caracteristicamente modernas. Nosotros acolhe modernistas nas páginas della e publicou a primeira série de poemas ultraístas18 argentinos em que apareceram os nomes de Jorge Luis Borges, Norah Lange e González Lanuza, para citar nomes altos. E em Inicial, Prisma, Proa, Los Pensadores, Claridad, Valoraciones (La Plata), Campana de Palo, Clarín (Córdoba), Brujula (Rosário) e Martín Fierro exclusivamente modernistas, os moços têm e tiveram bastante por onde aparecer, se agitar e discutir. Até uma feita, faz dois anos, no bar Royal Keller se leu uma Revista Oral. Prisma também teve sua originalidadezinha. Foi uma revista-cartaz pregada nos muros de Buenos Aires, “cartelón que ni las paredes leyeron y fue una disconformidad hermosa y chambona19 (J. L. Borges).

Se os primeiros pruridos de renovação, apareceram lá com os poemas de Ricardo Güiraldes20 em 1915, como aqui com a aventura surpreendente de Anita Malfatti, foi mesmo só depois da Guerra que o movimento botou corpo. Uma enquéte de Nosotros em 1923 teve o mesmo e único mérito da Semana de Arte Moderna aqui “puso de manifiesto, si no una nueva sensibilidad, por lo menos una reacción higiénica21 (P. J. Vignale). 


Mas aqui a gente discursava no teatro, lá se matutava por uma revista… Isso é bem sintomático. Ao passo que a nossa poesia modernista ia tomar uma feição eminentemente rapsódia, a argentina assumia desde logo um caráter intrinsecamente literário. Tipográfico mesmo. Até dentro do ultraísmo e da metáfora organizada em preceito os argentinos fogem da poesia oratória. Com exceção de Ricardo Güiraldes (poemas em prosa de Xaimaca) e de Jorge Luis Borges, que muitas vezes a gente percebe gozando com o valor musical das palavras e oral da frase. 

Devo notar que sempre reconheci o valor da eloquência, que carece não confundir como retórica fácil. Esta é que é desprezível e se manifesta aí por tudo, nos pseudo-poetas e espíritos vulgares.

Uma cosa curiosa de constatar é que no começo a arte moderna tomou aqui uma feição de proselitismo exibicionista quase religioso, muito equiparável a certos cultos protestantes e ligas pró qualquer coisa norte-americanos. Não percebo esse mesmo aspecto no modernismo argentino; a não ser no pintor Pettoruti. Em todo caso o aspecto missionário que o movimento assumiu aqui de primeiro (“Mestres do Passado”, Semana de Arte Moderna, o oraculismo dos discursos de Graça Aranha e dos artigos de Ronald de Carvalho e Renato Almeida, manifestos paulistas), teve pra disfarçá-lo um espírito de amadorismo eminentemente esportivo e saudável. O mesmo espírito que totaliza a muchachada de Martín Fierro

No verso modernista argentino o silêncio se encostou. Em Xaimaca, Ricardo Güiraldes sente o pampa assim:

Poco a poco menguaron las arboledas, enriquecióse de alfalfa la tierra e clara, como un abra entre montes, se despobló com suas arideces naturales la pampa. Desde nuestra pequeña altura de hombres ínfimos, cortamos en breve tangente un segmento de planetas. Mas allá, fuera de sospecha, siguel el mundo; mundo vale decir pampa. Pampa madre, creadora en mí de una gota de savia que quiere hacerse canto.

Con tal insistencia me habían hablado del calor, que me consuela el no haberme hasta ahora derretido. Encerrado en mi compartimento, estoy en pijama. El viento que por la ventanilla abierta y los bostezos de mi ropa me sopla en las cames, es tíbio y pesado como un edredón.

Respiro lentamente. Algunas gotas de sudor hacen angostas cosquillas frescas por mis flancos. No penso en nada hermoso y forzado a sufrir por horas aún estas abrumantes culminaciones climatéricas, jadeo embrutecido por depresiones físicas, como un perro bajo la calcárea vertical de un sol de fiesta.22

Agora é só a gente lembrar o rapto sonoroso com que Ronald de Carvalho23 sente também o pampa. Embora a própria diferença que vai da prosa à poesia já baste para dar certa distância entre os dois passos, as notações de Xaimaca são verdadeiros poemas em prosa. E basta observar a construção intrinsecamente lírica da primeira frase citada pra verificar que estamos em poesia.

Aliás Ricardo Güiraldes tem uma reflexão que me parece assentar bem a quase toda a poesia argentina modernista. Quando em Xaimaca uma pessoa… lírica fala

Estamos ya en el viento del Pacífico. Por él se puede tirar rumbo a todos los países viejos en cuyos templos ruinosos se recibe el bautismo de las filosofias madres,

o autor reflete:

Mi atención queda en lugares más inmediatos…24

Se nota nos argentinos um certo realismo imediato que pra gente indicaria uma certa falta de imaginação. Estará certo se a gente entender aqui por imaginação uma faculdade inventiva que cria por explosões surpreendentes ou complicadas. Basta lembrar a obra dos uruguaios, mais imaginosos nesse sentido, Lautréamont, Laforgue, Supervielle, os que levaram e ajudaram o “rarismo” na literatura francesa. E Reissig. Ao que a Argentina corresponde com Sarmiento, Hernández, Carriego e Lugones.

Se poderá dizer que em linha geral a ficção, fictícia mesmo, não é constância da psicologia argentina. Para eles vai melhor um realismo menos imaginoso e mais claro25. Parecem querer repetir na América o papel que a França realizou na arte européia nos últimos três séculos.

Não possuem como a gente esta facilidade infeliz de pagadores de andorinha. Está claro que lá também se usou e abusou de toda a retórica modernista e que a maioria das tentativas não passou de treino porém se nota uma força mais refletida e mais aproveitada no estudo e na discussão.

Na Argentina há uma vida intelectual muito intensa. Vida agrupada e não individual porque sempre os grupos são mais fecundos que os indivíduos. Essa vida principia cedo nas escolas. A vida universitária argentina é atualmente muito viva e até irrequieta. Isto se deve em parte enorme à maneira com que está organizado o aparelhamento universitário de lá, libérrimo, bem atual, independendo da vida política e até certo ponto da administrativa da nação. Uma espécie de nação de moços dentro da nação argentina. Veio daí um dinamismo excepcional entre a estudantada, em que a politicagem dos rapazes e o caudilhismo dos professores queridos não é prejudicial porque dá pros estudantes uma ficção de independência, de responsabilidade e força, valiosos quer sobre o ponto-de-vista da confiança em si mesmo quer sob o ponto de vista intelectual. Basta dizer que faz pouco, Pedro Juan Vignale propunha lá em comício, congresso ou cousa assim, uma reforma de instrução baseada em Lunacharsky26

Se todo o movimento intelectual brasileiro está se realizando depois, para fora e por assim dizer “apesar” da vida universitária, esta possui na Argentina a função fecunda e justa que tiveram as faculdades de Direito brasileiras, na Monarquia. Hoje estas faculdades fazem doutores e filhos-de-políticos.

O que também concorre para desenvolver em base boa a compreensão moderna de arte da Argentina são as revistas. Dentre elas, duas me parecem especialmente significativas, Claridad e Martín Fierro.

Claridad nome de manifesta importação francesa, é a antiga Los Pensadores de Antonio Zamora. Modificada e modernizada tomou uma feição social comunista vibrantíssima. É a mais combativa. E a mais feliz. Por causa da gente dela possuir um credo social e artístico bem determinado, segue rumo sem turtuveios nem pesquisas estéticas de ordem puramente desinteressada. É uma revista sã. Mas porque é feliz, a alegria aparece raramente nas páginas delas. Quem parece resumir a norma da alegria argentina é Martín Fierro mais pesquisadora mais inquieta mais artística e mais desigual.

Em Claridad a prosa enumera nomes excelentes. Contistas como Mariani e Henrique Amorim. Ensaístas como Luis Emílio Soto, figura forte e angular, com a pureza nítida dum desenho de Léger. Escreve pouco infelizmente. Mas no que escreve bota pensamento implacavelmente argumentador. Autor de Zogoibi, Novela humorística, verrina temível contra Larreta, argentino falso.

Também novelista ensaísta saliente no grupo é Salas Subirat. Depois duma novela mais longa que atraente La ruta del miraje convertido em hora boa à causa da revolução social, publicou um romance muito interessante, Pasos en la sombra de que já dei nota uma feita em Terra Roxa. Como ensaísta, tanto o Ensayo para los fósiles del futurismo como A cien anos de Beethoven são obras excelentes. Erudição sem alarde e visão franca. Quase sempre exato.

Entre os poetas desse movimento Álvaro Yunque alcançou alguma notoriedade com os Versos de la calle, com efeito muito superiores às Zancadillas que seguiram. Páginas de fé. Falando ao punhal do avô:

…hoy, desde que eres mio, yaces, sucio de herrumbre
y en un cajón, com libros, papel y lapiceras…

Vaya, y que pensaría de mí el abuelo criollo,
puñal, si ahora te viera

Pero yo soy un gringo; yo trabajo a lo gringo,
arando el alma humana como si arase tierra.
Y yo, puñal, contigo saco punta a los lápices
27

Mas também atinge a delicadeza lírica como ao ver o paredão da Penitenciária:

Tão monótono, triste y frio
–como una hoja de la ley–
lo vi que, compasivamente,
le escribí un nombre de mujer.
28

Um poeta que Claridad abrigou e me agrada extremamente é Aristóbulo Echegaray. A revolta social dele é duma suavidade curiosamente exemplificadora mas contemplativa. Por todo o Poeta empleadillo passa uma ingenuidade tão pura que comove muito. É desses poetas que a gente fica querendo bem. O Diário Nacional publica noutro lugar um poema dele.

É um revoltado sem revolta. Sem nenhuma intenção de menosprezo, ele me parece um menchevique em verso.

Dentro da mesma delicadeza, dos afastados de grupos, está Marcos Fingerit apenas estreando com as Canciones mínimas y Nocturnos de hogar. Foi uma tentativa feliz de tirar doçura da banalidade.

Tienes los ojos claros,
los cabellos grises,
la boca amarga,
madrecita mia
Tengo los ojos claros,
los cabellos rubios,
la boca amarga,
madrecita mia29

Mas já procura cantar uma vida mais datada e deixa que…

… a la sombra
de los rascacielos en flor
mi niña ilusión
se ponga a jugar.
30

A suavidade lírica se manifesta modernamente na Argentina sem excesso de individualismo. Além de Conrado Nalé Roxlo que a gente não pode chamar propriamente uma sensibilidade moderna, Francisco Luis Bernárdez e Pedro Juan Vignale exemplificam a doçura tipicamente argentina de agora. Francisco Luis Bernárdez mostrou na Alcándara uma tendência para cantar com a testa reclinada.

Pedro Juan Vignale conseguiu reunir a alegria com a felicidade. Figura feita bem pela época. Mas o pensamento dele, imbuído de Comunismo, não mora na mesma rua da poesia. Além duma Exposición de la actual poesia argentina, antologia muito boa, feita de colaboração com César Tiempo, publicou os Naufrágios de agradável têmpera lírica. Dele o Diário Nacional publica hoje a deliciosa “Córdoba”. Publicou recentemente um poema delicioso, Sentimiento de Germana de que darei notícias mais tarde.

Soler Darás vive contando estrelas. Porém a claridade firme e bem diurna da voz dele não possui aquela escureça complacente que permite a presença dos astros. Também hoje o Diário Nacional publica a bonita “Playa” dele.

Córdoba
Pedro Juan Vignale

Córdoba la bella,
redonda de cúpulas
como una doncella

Un cielo clarísimo
de agua y de raso.
Don principalísimo

de alcumia beata:
tan sólo a un Dios reza con cara de plata.

Ciudad doctoral,
tiene tu español
tintin de cristal.

Córdoba: te irrita
el champagne… prefieres
el agua bendita!

Córdoba: tan vieja
que aún guarda flores
detrás de la reja.

Y por las mañanas
perezosa sale,
paso de campanas.

Y oye una misa,
y vuelve a los patios
callada y sumisa.

Ronca un tren lejano…
Un tranvía eléctrico
chispea el aldeano

reposo. Y la vieja
oye e mira esto
por entre la reja.

– Jesús, ay Jésus
qué tiempos vivimos.
Y signa la cruz.

Córdoba: alfajores
y yerbas que curan
todos los dolores.


Córdoba

Córdoba, a bela,
redonda de cúpulas
como uma donzela

Um céu claríssimo
de água e de cetim.
Dom principalíssimo

de alquimia beata:
reza apenas a um Deus com rosto de prata.

Cidade doutoral,
tem teu espanhol
tinido de cristal.

Córdoba: te irrita
o champanhe… preferes
a água benta!

Córdoba: tão velha
que ainda guarda flores
atrás da grade.

E pelas manhãs
preguiçosa sai,
passo de sinos.

E ouve uma missa,
e volta aos pátios
calada e submissa.

Ronca um trem distante…
Um bonde elétrico
faisca o aldeão

repouso. E a velha
ouve e olha isto
por entre a grade.

– Jesus, ai Jésus,
que tempos vivemos.
E benze a cruz.

Córdoba: alfajores
e ervas que curam
todas as dores.

Playa
Soler Darás

El mar, sobre la arena,
arroja júbilos de espuma.
La playa se abanica de gaviotas
para saludar al sol.
Playa quebrantada de luz
sobre los cristales del mar,
infantilizada y eterna
por los siglos primeros.
Sabor a tiempo y a distancias
en el museo de silencio
Grandes pampas de vientos
aglomeran horizontes.
–Bandoleros mitológicos
de los puntos cardinales.–
La playa
es un tumulto de sirenas
para llorar a los náufragos.
Los pájaros-piratas
cruzan distancias
desesperados de infinito.
Y el mar
hace un escándalo en mi espíritu
constructor de Ciudad.


Praia

O mar, sobre a areia,
arremessa júbilos de espuma.
A praia se abana de gaivotas
para saudar o sol.
Praia quebrada de luz
sobre os cristais do mar,
infantilizada e eterna
pelos séculos primeiros.
Sabor de tempo e de distâncias
no museu do silêncio.
Grandes pampas de ventos
aglomeram horizontes.
– Bandoleiros mitológicos
dos pontos cardeais. –
A praia
é um tumulto de sereias
para chorar os náufragos.
Os pássaros-piratas
cruzam distâncias
desesperados de infinito.
E o mar
faz um escândalo em meu espírito
construtor de Cidade.

3.

(13 de maio de 1928)

O movimento da revista Martín Fierro é na certa o mais vivo, mais fecundo e mais típico da literatura moderna argentina. Martín Fierro tornou e mantém cada vez mais viva uma função orientadora e selecionadora de idéias e valores caracteristicamente modernistas. Além disso, limitou em geral a sua manifestação à arte, o que a valoriza especialmente neste trabalho, cujo fim é de vulgarização artística.

Por todas estas razões Martín Fierro ajunta o que tem de melhor a literatura moderna argentina e representa com largueza e caráter o espírito dessa literatura.

Infelizmente nos últimos tempos tem se esforçado por congregar nas páginas dela também muitos nomes estrangeiros. Especialmente europeus. Especialmente franceses. Digo “infelizmente” para nós, os que se interessam pela manifestação argentina de arte que fica prejudicada não em valor mas em número diante dessa concorrência estrangeira. Esta a gente lê nas revistas européias com bem mais nitidez e verdade. Numa revista sul-americana na maioria dos casos não pode interessar. Em geral é escrita “pour 1’Amérique Latine”… Eis um reparo que me parece mais fácil de ser feito pela timidez recalcitrante dum brasileiro que pela confiança dum argentino…

O espírito de Martín Fierro é eminentemente nacional, culto e alegre. Um jeito gozador caçoísta e esportivamente serelepe que entre nós só mesmo os paulistas conseguem ter.

Até o nome da revista lhe esboça bem a força nacional31. Me parece incontestável que nas suas linhas gerais a Argentina toda já vibra num ritmo psicológico único. Até entre os escritores mais díspares a gente já percebe um certo ar-de-família difícil de fixar porém fácil de sentir. Um crioulismo essencial menos tendencioso que inconsciente, mais ativo que simplesmente rotular. Uma espécie já de fatalidade nacional eminentemente lógica e feliz que se encontra sobretudo em Güiraldes, em Oliverio Girondo (apesar de Girondo…) e especializadamente na obra surpreendente de Jorge Luis Borges que dentro de toda a cultura hispânica dele, vê e sente crioulamente.

Esse crioulismo tão bem vibrado no ensaio de Jorge Luis Borges que o Diário Nacional publica hoje32, me parece costurar as páginas de Martín Fierro. Apesar de toda a influência européia, ou antes, aceitação européia que a gente pode encontrar nas doutrinas estéticas que a revista prega ou indica.



Eu falei que o nacionalismo argentino era mais inconsciente que rotular. Com efeito a pouca frequência do problema “Nacional” nas páginas de Martín Fierro e a importância sem importância que a ele parecem dar na revista me leva em grande parte a essa afirmativa. Que pode ser mais ou menos falsa…

Quem se preocupa mais com ele é Jorge Luis Borges. Este poeta e ensaísta me parece a personalidade mais saliente da geração moderna da Argentina. Depois de Ricardo Güiraldes – o que teve a felicidade de morrer depois da obra-prima – a figura de Jorge Luis Borges é a que mais me atrai e me parece mais rica de lá. Será talvez ele quem vai substituir Ricardo Güiraldes e consolar com uma presença de intimidade a memória do morto.

Jorge Luis Borges vivido muitos anos de estranja, quando chegou na pátria já igualado, se espantou com ela e se aplicou a cantar a realidade dela. Disso lhe veio o Fervor de Buenos Aires e Luna de enfrente dois livros de poesia. Publicou mais Inquisiciones, ensaios. Este é um livro excepcionalmente bonito, duma elegância muito rara de pensamento, verdadeira aristocracia que educou-se na sobriedade, na imobilidade da exposição e no raro das idéias. Além disso apresentando uma erudição adequada. Às vezes ri. Muito pouco. Realiza perfeitamente aquela síntese crioula que Güiraldes deixou numa página boa de Raucho: “Era prudente y callado: solía reir sin ruído y sabedor de las inseguridades en la vida, no avanzaba un juicio sin anteponer la duda33. Jorge Luis Borges me parece mais ou menos assim. E verdade que em Inquisiciones ele apresenta menos que pensamentos, resultados de pensamentos porém suponho uma dialética hegeliana no jeito dele pensamentear.

Um certo ceticismo decadente que talvez lhe venha da cultura, excessiva para idade tão moça que mostra só 28 anos. Ele mesmo fala em dois versos bonitos e amplos:

He persistido en la aproximación de la dicha y en la privanza del dolor. Soy esa torpe intensidad que es una alma.34

Ele mesmo fala em dois versos bonitos e amplos. Tem pouca vida objetiva, mesmo nos versos descritivos de Fervor de Buenos Aires. Jorge Luis Borges viveu menos de que pensou e agiu literariamente. Ele afirma a tristeza essencial do argentino. Tanto nele como na figura de Don Segundo não me parece que seja bem tristeza. E antes um silêncio essencial. O silêncio altivo das trepidações que supõe lá dentro da usina milhares de cavalos-força nascendo. Os versos dele que conheço são naturezas mortas naquele sentido tão lindo de “vida silenciosa” que lhe dão os alemães. Jorge Luis Borges tirou dos estudos uma fadiga contemplativa e condescendente. Então diz: “El tiempo está viviéndome”…

Por falar em tango (estava pensando em comparar Jorge Luis Borges com o tango) quem escreveu página boa sobre ele em Martín Fierro foi Sérgio Pinero filho, que eu saiba, exclusivamente prosador. Publicou El punal de Orión, impressões de viagem, livro exquis, porém duma prosa firme e escrita por si mesma. E hábil o jeito com que Sérgio Pinero aliás em viagem pouco banal pelos mares gelados do sul, brinca com o banal sem se deixar propriamente cair nele. Certas passagens como a das feitorias de Georgia ou a com Mr. Barlas deviam de enquisilar num escritor de segunda ordem. E mesmo tratadas pelas maõs espertas e jornalísticas de Sérgio Pinero, cuja notação comovente cai sempre no lugar e ajusta bem, ninguém não poderá garantir que não sejam esquecidas depois. Ou pelo menos garantir que possuam essa utilidade da lembrança pela qual as obras continuam muitas feitas vivendo dentro da gente.

Na crítica estética doutrinária um tempo se distinguiu em Martín Fierro Leopoldo Marechal. E expositivo, claro e possui essa confiança no que diz que ajuda a convicção do leitor. E também poeta dos falados, desde que publicou Dias como flechas em 1926.

Poesía sín título
Leopoldo Marechal

En una tierra que amasan potros de cinco años
el olor de tu piel hace llorar a los adolescentes.

Yo sé que tu cielo es redondo y azul como los huevos de perdiz
y que tus mañanas tiemblan,
¡gotas pesadas en la flor del mundo!

Yo sé cómo tu voz perfuma la barba de los vientos…

Por tus arroyos los días descienden como piraguas.
Tus ríos abren canales de música en la noche;
y la luna es un papagayo más entre bambúes
o un loto que rompen a picotazos las cigüeñas.

En un país más casto que la desnudez del agua
los pájaros beben en la huella de tu pie desnudo…

Te levantarás antes de que amanezca
sin despertar a los niños y al alba que duerme todavía.
(El cazador de pumas dice que el sol brota de tu mortero
y que calzas al día como a tus hermanitos).

Pisarás el maíz a la sombra de los ancianos
en cuyo pie se han dormido todas las dan
zas.

Sentados en cráneo de buey
tus abuelos fuman la hoja seca de sus días:
chisporrotea la sal de sus refranes
en el fuego creciente de la mañana.

(Junto al palenque los niños
han boleado un potrillo alazán…)

En una tierra impúber desnudarás tu canto
junto al arroyo de las tardes.
Tú sabes algún signo para pedir la lluvia
y has encontrado yerbas que hacen soñar.

Pero no es hora, duermen
en tu pie los caminos.

Y danzas en el humo de mi pipa
donde las noches arden como tabacos negros…


Martín Fierro aconselhou a leitura de Norah Lange. A poesia feminina, desde a experiência notável da uruguaia Delmira Agostini, tomou no Prata uma feição fatigantemente sensual. Daquela mesma sensualidade que fez o sucesso e o descrédito da primeira fase de Gilka Machado aqui. Inda agora a talvez mais recentemente aparecida em livro das poetisas argentinas, Nydia Lamarque, publica a Elegia del gran amor. A guitarra é a mesma. Só que Nydia Lamarque em vez das notas semostradeiras da prima tira em geral sons de bordão.



Norah Lange, pelo que sei dela e é pouco, escapuliu do farrancho e principiou com doçura de intimidade uma cantiga solitária mais sutil:

Tarde a solas
Norah Lange

Vacía la casa donde tantas veces
las palabras incendiaron los rincones.
La noche se anticipa
en el piano, mudo
que nadie toca.

Voy a solas desde un recuerdo a otro
abriendo las ventanas
para que tu nombre pueble
la mísera quietud de esta tarde a solas.
Ya nadie inmoviliza las horas largas y cerradas
a toda dicha mía.

Y tu recuerdo es otra cosa
grande y quieta
por donde yo tropiezo sola.
Y mis latidos forman una hilera de pisadas
que van desde tu puerta hacia el olvido.

Tarde a sós
Vazia a casa onde tantas vezes
as palavras incendiaram os cantos.
A noite se antecipa no piano
mudo que ninguém toca.


Vou a sós de uma lembrança a outra
abrindo as janelas
para que seu nome povoe
a mísera quietude desta tarde a sós.


Ninguém mais detém as horas sem fim,
fechadas a toda minha alegria.

E sua lembrança é outra coisa
vasta e quieta
por onde eu tropeço sozinha.

E minhas pulsações formam uma fileira
de pegadas que vão
desde sua porta até o esquecimento.

Outro poeta notável do grupo, mano de Cesário Verde, um Cesário de café-concerto, é Nicolás Olivari. La musa de la mala pata que publicou faz dois anos tem capa dum amarelo que arde na vista como para se lembrar da sensualidade sestrosa dos Amours jaunes.

Nicolás Olivari é duma poesia extremamente simpática que, como vida, interessa aos que conhecem a vida noturna e, como despeito, pra fazer raiva, aos bem-aventurados, às solteironas e aos homens de família com boa reputação. Nicolás Olivari inventou um “criollismo sin sol” talvez por demais insistente no assunto boémio para não se tomar retardatário aos trabalhos do dia. Tem poemas admiráveis. Nos versos dele as notas de sarcasmo ou de ironia usam um processo de frutecência de jaboticabeira: grudam no tronco. E cantador como o quê. E como sabe mostrar sem pudor falso uma última caspa sentimental, La musa de la mala pata canta saltando com muito sabor.

Severín: pantomimo
Nicolás Olivari
 
Severín, pantomimo grotesco,
Rey Lear de la corte del sueño
es tu mueca macabro diseño
surgida de un cuadro de Thibón de Libián.
Has caído en mi cine de barrio
agitando tus manos de araña,
¡Severín! el hambre no engaña
y tú eres del hambre su seco galán.
 
Severín, espantoso relieve del crimen
de la Rue del Vizconde D’Estoche
tu amante no viene esta noche.
¡Oh! príncipe negro del negro bas fond…
Faltarán esta noche a la cita
tu señorita y mi Milonguita…
¡linda puñalada tendrá el corazón!
 
En el cine de barrio triunfa
tu arte manido de apache infecundo
tu mundo es mi mundo
grotesco arlequín,
rellena de estopa tu faz de magnesia
se agita en la vana epilepsia
que danza en la tripa del loco violín.
 
Severín, pantomimo grotesco,
ya cae la noche en la turbia cortada,
se acelera el burgués en la torpe celada
y una luna prestada
desaloja al farol.
¡Severín acabemos, ¡por Dios!, nuestra bárbara
farsa, y en el vil tobogán de la gárgara
compartamos, ¡oh mimo!, la ilusión del alcohol!

Severín: pantomimo
Severín, pantomimo grotesco,
Rei Lear da corte do sonho,
tua careta é um desenho macabro
saído de um quadro de Thibón de Libián.
Caíste no cinema do meu bairro
agitando tuas mãos de aranha;
Severín, a fome não engana,
e tu és o galã franzino da própria miséria.

Severín, figura assustadora do crime
da Rue del Vizconde D’Estoche,
tua amante não vem esta noite.
Oh, príncipe negro do submundo…
Faltarão hoje ao encontro
a tua senhorita e a minha Milonguita…
que bela punhalada levará o coração!

No cinema do bairro triunfa
tua arte batida de marginal estéril;
teu mundo é o meu mundo,
arlequim grotesco,
com o rosto pálido como cal,
você se agita nessa vã epilepsia
que dança nas entranhas do violino louco.
Severín, pantomimo grotesco,
a noite já cai no beco sombrio,
o burguês se apressa na armadilha torpe,
e uma lua emprestada
toma o lugar do lampião.
Severín, acabemos por Deus com essa farsa bárbara,
e no escorregador vil do gole,
compartilhemos, ó mímico,
a ilusão do álcool!

Um que em geral detesta o nú é Oliverio Girondo (Veinte poemas, Calcomanías). Se veste de imagens. Faz casal de jaboticabeiras com Olivari, porém se contenta com a flor. Pra mim o principal defeito do excesso de imagens é elas abrirem concorrência entre si. Nos poemas de Oliverio Girondo abriram. A gente às vezes esquece dos versos e torce por um simples concurso de beleza. A obra de Oliverio Girondo toma por tudo isso a aparência de festança dos bailes à fantasia. Mas no poeta que descreveu aquela Semana Santa sevilhana não me parece que tenha leviandade apenas. As imagens são que nem as máscaras: muitas feitas dão pra realidade, uma realidade mais imediata e sincera. E Oliverio Girondo não demonstra aquela psicologia de desvairo metafórico que os futuristas e expressionistas apresentam. Rima bem; e de rodada entre as metáforas curiosas se conserva dentro dum realismo natural.

Otro Nocturno
Oliverio Girondo

La luna, como la esfera luminosa del reloj de un edificio público.

¡Faroles enfermos de ictericia! ¡Faroles con gorras de “apache”, que fuman un cigarrillo en las esquinas!

¡Canto humilde y humillado de los mingitorios cansados de cantar!;Y silencio de las estrellas, sobre el asfalto humedecido!

¿Por qué, a veces, sentiremos una tristeza parecida a la de un par de medias tirado en un rincón?, y ¿por qué, a veces, nos interesará tanto el partido de pelota que el eco de nuestros pasos juega en la pared?



Outro Noturno
A lua, como o mostrador luminoso do relógio de um edifício público.

Postes doentes de icterícia! Postes com bonés de “apache”, que fumam um cigarro nas esquinas!

Canto humilde e humilhado dos mictórios cansados de cantar! E o silêncio das estrelas sobre o asfalto umedecido!

Por que, às vezes, sentimos uma tristeza parecida com a de um par de meias jogado num canto? E por que, às vezes, nos interessa tanto a partida de bola que o eco dos nossos passos joga contra a parede?

Noites em que nos escondemos sob a sombra das árvores, com medo de que as casas acordem de repente e nos vejam passar, e em que o único consolo é a certeza de que a nossa cama nos espera, com as velas içadas rumo a um país melhor.

E creio que não esqueci nenhum dos nomes mais evidentes do movimento modernista da literatura argentina. Com mais o artigo sobre Ricardo Güiraldes, domingo que vem, esta série se acaba.

Minha intenção foi a melhor possível e não tenho a vaidade dos juízos que exprimo. Valem de passagem como sensação de leitor estrangeiro, no sentido em que “estrangeiro” compreende apenas uma psicologia étnica diferente. Porque no resto não me considero estrangeiro pra ninguém. Aqui no Brasil a palavra “estrangeiro” só é conhecida pelos semicultos. Meu povo só fala em “estranhos”. Naqueles que a gente estranha um bocado pelo modo de falar e de sentir. E como estranho que escrevi tudo isto. Minha intenção foi apenas vulgarizar aqui nomes de valor que não cedem a muito nome europeu que vem na capa tradicionalmente comprada de livro francês, inglês e italiano.

Na renovação enorme por que está passando a literatura de agora, nossos países da América já compartem com menos número mas igualdade de valores, do movimento do mundo. Os valores de hoje se disseminam melhor, deslustrados pela pesquisa e pela insatisfação. Se as obras grandes aparecem também, porque gênio jamais não foi privilégio das épocas de perfeição formal, é certo que a maioria infinita das obras nascidas nos períodos de transição têm que trazer o destino das vias-de-comunicação: passar.

A literatura modernista argentina já produziu a obra de Ricardo Güiraldes, porém com as outras literaturas indica principalmente por enquanto uma força nova de muita promessa. E aparece prá mocidade do mundo cantando simpaticamente o verso lindo de Raúl González Tunón:

Soy un gran pedazo de juventud.

3.

(20 de maio de 1928)

Me parece que nenhuma figura representa mais integralmente que Ricardo Güiraldes o período psicológico nacional que estão atravessando com maior ou menor intensidade as nações sul-americanas.

Já afirmei que a diferença psicológica atual entre brasileiros e argentinos significava mais que simples descendência racial e circunstâncias sociais diferentes. Significava que as duas nacionalidades já possuíam uma entidade psicológica constante. Essa entidade por meio de todas as libertações entrou no período de fixação. Por isso mesmo, período de mais turtuveio. Momento de trabalho bravo, muita crítica, pesquisa por demais, inquietação, vitórias e enganos. Nós, mais inquietos mais ingênuos e mais inventivos. Os argentinos mais confiantes mais firmes, menos individualistas. Porém todos dentro do mesmo turtuveio entre a atração e influência europeia e uma fatalidade nacional certa mas sem nitidez ainda, quase miragem, por ser baseada no futuro.

Ora influência européia, a pesar de figuras escoteiras mais ou menos arreadas de hispanismo lá e lusitanismo aqui, ou mais ou menos germanizadas no pensamento, influência européia quase que é sinônimo de influência francesa. Pois ninguém como Ricardo Güiraldes não pode representar tanto este momento sul-americano.

O artista pode escolher mais livremente as influências que acomodam-se com o temperamento dele. Escolher e até reagir contra. Porque na fixação a gente não deduz a verdade com a mesma lógica que numa orientação científica de qualquer espécie. Em arte a verdade, em que pese aos Zelsings e Jeannerets, nem é propriamente uma dedução intelectual, é muito mais questão de afinidade eletiva. “No tengo aptitudes de máquina para transformar bellezas en utilidades y si algo hay de verdad en mis escritos, culpa mia no es35 (El cencerro de cristal).

Acho que ninguém não representa talqualmente Ricardo Güiraldes o momento psicológico sul-americano justamente porque em ninguém como nele não se ajuntaram tão conscientemente tão equilibradamente e bem aceitas as duas tendências em que a gente se debate: atração da França e atração nacional. De toda a obra dele pequena e desigual (desconheço Rosaura, edição fora de mercado) se salientam pelo valor duas: Xaimaca e Don Segundo Sombra. A primeira representa o predomínio da influência francesa, obra requintadíssima. A segunda é um equilíbrio perfeito entre as duas tendências mas tendo como base fatalizada o ideal nacional.

Ambas são dois poemas admiráveis. Poemas em prosa. E verdadeiramente poemas e não romances porque nelas não tem entrecho propriamente. Nelas o desenrolar lógico dum caso ou duma vida é secundário ou é mesmo alógico como é o caso de Don Segundo Sombra. A inteligência não desenvolve historiadamente o tema lírico. São cenas ajuntadas em rosário, sem sequência imediata nem continuidade imprescindível. Xaimaca um poema de amor, com base psicológica e realística. Don Segundo Sombra um poema heroico, objetivo nas cenas porém idealista no fundo, continuando as Sagas pampeanas com Facundo, Martín Fierro e talvez a Guerra gaúcha de Lugones.

Ricardo Güiraldes teve isso de curioso; sendo um temperamento bem de poeta, foi na prosa que achou o melhor jeito de criar poesia. Quando fez poesia, formalmente poesia, foi inferior com o Cencerro de cristal.

Aliás o Cencerro de cristal me parece um livro difícil dum estranho julgar. Porque tem valor mais histórico que intrínseco, e a História possui prós homens um valor afetivo que fortifica as emoções… Foi uma espécie de ensaio que pra mim resultou ineficaz como beleza. Ou antes uma espécie de descanso prematuro dentro da liberdade poética pós-simbolista, dum poeta que sentia-se eminentemente prosador, quero dizer, dum homem no qual as necessidades da inteligência se não predominavam de todo sobre a sensibilidade inata e a impulsão lírica (como é ofício da prosa verdadeira) preferiam dominá-las e organizá-las sempre dentro dum entrecho pelo menos esgarçado.

Cencerro de cristal é uma tentativa de libertação da poética tradicional, pesquisa por muitas partes malograda. Mas é como isso que conserva um valor histórico inamovível. Dele que data a renovação literária argentina. Aliás me parece que Ricardo Güiraldes só tem de modernista o ser precursor da renovação atual com esse livro. No resto da obra dele, é um artista sem facção, dos que ficam por cima das épocas que nem um Conrad ou um Thomas Mann, nada tendenciosos e mais respeitosos da personalidade deles que de veleidades inovadoras. São raríssimos os traços de modernismo encontráveis na obra de Ricardo Güiraldes. Foram os apreciadores dele os influenciados por ele, isto é, todos os modernos de lá, os que souberam perceber melhor na Argentina a grandeza do que tinha de vir, especialmente os martinfierristas que o atraindo para eles ou indo a ele, impossibilitaram o isolamento do pé de milho fazendo-o viver no canavial. Mais ou menos o caso de Paul Valéry prá França e de Pirandello prá Itália.

E é certo que Güiraldes sofreu sempre uma certa traição de valores. El cencerro de cristal mais que valor próprio vale pela posição histórica que teve e Don Segundo Sombra vale menos que o valor intrínseco por causa do símbolo que muitos viram nele de livro nacional. Como “herói nacional” (herói no sentido de tipo) Don Segundo Sombra é falso e exclusivamente romântico. Pela dedicatória do livro parece que o próprio Ricardo Güiraldes sentiu um certo arroubo idealista diante da obra bonita que fizera… Coisa explicável no que viveu tempo comprido no campo entre gaúchos. Porém mesmo assim não creio que Ricardo Güiraldes tenha visto no gaúcho um símbolo de nacionalidade… Símbolos assim ajudam o sentimentalismo dos povos em geral mas não podem satisfazer as exigências dum espírito superior que não esteja enfraquecido por circunstâncias sentimentais do momento.

E é bom falar que no Rio Grande do Sul nossa gente se envaidecendo de revoluções discutivelmente bonitas e muito heroicas não tem dúvida, e de certo influenciada pela continuidade do sangue de boi correndo, está criando também um ideal valentão que me parece infantilmente frágil. Entre heroísmo de fação e laço e heroísmo de combater chão de pedra mineira ou seca nordestina, acho que como individualismo todos se eqüivalem. Mas socialmente falando o heroísmo briguento é um heroísmo apenas caloteiro. Agora não tenho forças mesmo é para perdoar esse heroísmo quando além de caloteiro é literário.

Don Segundo Sombra sofreu na Argentina duma traição de valores que talvez o tempo desfaça. Como criação é livro admirável. Como tipo, o gaúcho representado nele pelas duas figuras centrais, pode corresponder a uma realidade geral, o que não tem importância na ficção. Porém real ou irreal, Don Segundo Sombra é uma figura artística admiravelmente nítida, impressionante, geralmente vivida. Esses são os valores reais dela. Mas ela trazia o perigo de formar nos patriotas a melodia dum hino nacional e parece mesmo que prá maioria ela está valendo pelo perigo que tinha e Ricardo Güiraldes acentuou pela destreza sem cochilo de Don Segundo.

Como pesquisa, o Cencerro de cristal revela influências várias e até indesejáveís. E possível encontrar um certo wildismo nele. E também nas Plegarias astrales uma talvez influência futurista pelo abuso das metáforas (e das metáforas gigantescas) pela eloquência falsa tão inexistente no Güiraldes verdadeiro, pela exaltação do Sol e desprezo à Lua. E uma pesquisa variada e incessante. O livro parece “tener alma de proa” como Güiraldes fala de si num verso simpático. / Se salvam as sátiras e os poemas nacionais. Páginas mais vividas como a deliciosa “Chacarera”. Sobre o gaúcho aparece aliás uma idealização sentimental bem fraca.

Antes do Cencerro de cristal, Ricardo Güiraldes publicara os Cuentos de muerte y de sangre. E também livro de valor literário bem reduzido. Porém as anedotas impressionantes da primeira parte já caracterizam bem o poeta. Se percebe que ele tem um certo derriço pelas coisas fortes e primitivas. A braveza e simplicidade selvagem de alguns desses casos pançudos são as mesmas que com mais universalidade e perfeição a gente encontra em Raucho e Don Segundo Sombra. Já declinado na vida por causa da doença detestável, Ricardo Güiraldes voltou prás tendências do princípio, genializando o que de primeiro fora simples notação. E não é rara essa volta dos artistas quando igualados, pro assunto escolhido no começo da carreira. Questão de curiosidade do próprio passado e redenção de culpas.

Apesar de bem mais firme o livro que segue inda esvoaça. Só depois é que virão as obras definitivas. Em Rancho o poeta experimenta o romance. E um romance bem romance, todos os fatos e gestos possuem dia seguinte. Conta a aventura do sul-americano em Paris. Raucho Galván obtém lá uma certa voga e prazeres a custa de sacrifícios morais. Paris é ineficaz pros destinos duma vida sul-americana? Então Raucho desmoralizado, meio abúlico, é trazido para trabalhos de estância que conhecia de piasote. O livro evita bem as cenas de romance com a exceção inexplicável da página do sonho. Mas o horror preconcebido pelo fato sentimental, que é tendencioso da literatura moderna argentina, tem no autor de Raucho um exemplo bom. Ricardo Güiraldes tem a predileção dos homens bem masculinos. O próprio Marcos de Xaimaca é um homem forte a que certa fadiga proveniente de cultura e requinte de civilização, tomaram mais variado mais subtil e sobretudo menos voluntarioso. E o forte que descobriu a contemplação.

Mas nos dois tipos argentinos requintados pela civilização européia que Ricardo Güiraldes inventou, estava com vontade de escrever “autobiografou”, Raucho e Marcos, a ação civilizadora foi deletéria e os despaisou. Isso é curioso de constatar quando a gente se lembra que o poeta era uma figura civilizadíssima, aceitando conscientemente a influência francesa e se utilizando dela. Raucho e Marcos seriam nesse caso as confissões poéticas de um arrependimento sequestrado…

Nossa tragédia atual consiste nisso: possuindo já uma base boa de psicologia étnica não possuímos civilização própria. E a civilização européia que a gente é obrigado a aceitar pra ter uma, age em nós ver azeite no mar, amolece a realidade. Ricardo Güiraldes se conservava dentro da aparência européia. Na obra dele é uma verdadeira constância o refinamento de observação bem à francesa: “Em seu escritório, envolto em fumaça de tanto fumar, com um tique de maníaco, via a vida simbolizada por seu terno de luto, comprado em momentos de desvario, ridículo em sua solenidade e grande demais: algo supérfluo, miserável, estranho a ele. Caía na noite em uma incoerência. Afundado em sua poltrona, brincava com um pequeno revólver, cuja empunhadura de madrepérola refrescava suas mãos; era um hábito desde que sacara aquela arma pela primeira vez, com uma decisão tomada.” As imagens são agora escolhidas e raras: “Raucho corre para entrar no dia”; “eram provincianos carrancudos em sua maioria e respeitava-se a sua tranquilidade, como a de um barril de pólvora”; “Em suas mãos cheias de anéis, as uvas báquicas choravam como olhos arrebentados de injúria”. Já surgem os preciosismos bem de literatura parisiense: “Ela oferecia chá para dizer algo; ele aceitou para ter o pretexto de uma atitude”.

Porém quando se não quando arrebentava o mar dentre o azeite. Como na página esplêndida já notada por Valery Larbaud do gaúcho colegial que tinha a mania de bancar de bagual. Páginas sopapos como essa ou a morte de marruá em Don Segundo Sombra, são raras na obra de Ricardo Güiraldes. O que as toma inda mais impressionantes. Se tem a impressão que dentro do homem civilizado que foi a constância da psicologia literária de Ricardo Güiraldes, explodia às vezes de sopetão um ser diferente, de intrepidez valentona e força bárbara, “alma impetuosa de dios salvaje”.

Depois de Raucho, em plena maturidade foi que o poeta nos deu Xaimaca e Don Segundo Sombra. Não vou mais pormenorizar esses livros. Pelas notações que deixei por aí já ficou quase o suficiente para explicá-los e bastante para chamar a atenção brasileira.

Xaimaca é já um livro ótimo e… francês. Desaparece o deus selvagem. Só o outro que a gente enxerga, um discreto refinadíssimo, inimigo mortal de qualquer vulgaridade, capaz e amador da notação rara porém evitando a notação forte. E por assim dizer um livro desraçado embora eu tenha qualificado de “francês” certo modo de ser do poeta, só por comodidade de argumentação.

Só mesmo quando o equilíbrio e fusão das duas tendências apontadas se realiza em Don Segundo Sombra é que Ricardo Güiraldes se genializará. E essa fusão foi a melhor possível porque na personalidade criadora de Güiraldes é que estava o homem forte simples trágico. No realizador, no objetivador das invenções no “escritor” é que estava o homem civilizado e francês. Quando o “escritor” quis ser também forte e impressionante que nem nas Plegarias astrales, se mostrou desajeitado, barulhento, eloquente sem franqueza. Em Don Segundo Sombra não: o assunto, a base inspiradora e a invenção é que são fortes e trágicas. Porém como essa força residia nos casos contados não careceu de coros nem de lamentações. E o escritor delicado pôde se expandir com a mesma largueza numa fusão harmoniosíssima. E Don Segundo Sombra foi um livro magistral. Diante dele não tenho o que esmiuçar. Fico completo como no geral a gente fica diante das obras-primas.

Ora em Xaimaca é a própria invenção que é refinada e subtil. Até o exagero que diz preciosismos um bocado fin-de-siécle, sem força vital, herança de Wilde. Como neste passo: “— Por que não me olha? — Retribuir um gesto de carinho com outro é perder um pouco da dádiva. Um beijo devolvido deforma o gesto da boca que beija. — Clara! Não vá embora! — Se eu não posso ir embora. Voltar a mim já é impossível. O que me assusta em seus braços é também o que me defende. (…) Clara caminha lentamente. Seus braços parecem ter se alongado de desânimo. Recosta-se em uma poltrona, mordendo o pequeno lenço para chorar baixinho. — Quer que eu vá embora? — Não, sente-se aqui, aos meus pés. Fale comigo, acaricie-me, faça de mim o que quiser. Minha solidão é incapaz de esforço. Tenho necessidade de sermos “nós” para me defender de mim mesma”.

A figura de Clara é incontestavelmente excepcional embora não tenha nada de… russa, como é mania agora a gente invocar Dostoievski, diante de qualquer personagem que foge do comum… Tem uma contextura um pouco vaga e mesmo rebuscada. Os fatos sucedidos na volta de Tacna e dias seguintes são bons pra gente reparar isso.

Também Marcos, psicologicamente o mesmo Raucho, enriqueceu bastante. Bem mais complexo e individual que o Galván simples do livro anterior. Simples e talvez simplório. Ricardo Güiraldes, que viveu se concertando, quis talvez se penitenciar do argentino um pouco vulgar e muito curto que personalizara em Raucho…

O livro se acaba num chuveiro de poemas em prosa de que traduzo alguns no Diário Nacional de hoje. Ora psicológicos, ora descritivos, quase todos deliciosos, são a poesia melhor que Ricardo Güiraldes escreveu. E é curioso da gente notar que justamente nesses poemas, o argentino atinge um colorido e uma sonoridade rimada ondulantemente que não tem eco na poesia modernista de lá e de que a mais característica manifestação está no equatorialismo sumarento de Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho. Ora justo nesses poemas Ricardo Güiraldes evoca vistas e climas equatoriais, isso quando mais não seja serve pra explicar a sonoridade poética dos brasileiros… Se observe por exemplo o “Mercado de Monteago” e a “Partida de Jamaiquinos”.

Com Don Segundo Sombra conseguindo enfim num assunto rapsódico de vida pampeana o equilíbrio entre a tendência criadora, o realismo observador, a dicção refinada e a fatalidade nacional, Güiraldes desgarrou numa toada formidável, humana e profunda em que pôde dar o máximo de sua expressão criadora. E raro a gente ver um assunto assim rude que atinge mesmo em certos momentos uma aspereza primitiva, se tomar sem diletantismo a criação integral dum espírito refinadamente civilizado e se transformar sem enfraquecer os valores crioulos numa manifestação elevada de cultura. Esse me parece o milagre mais notável de Don Segundo Sombra. Ricardo Güiraldes contando em obra de arte as paisagens as cenas e as almas da vida gaúcha conseguiu não permanecer no eco. Fez que nem os jardineiros japoneses que das árvores macotas do mato conseguem exemplares cabendo na palma da nossa mão. Me parece que está nisso a maior eficiência ao mesmo tempo da arte e da cultura desse livro: totalizar a vida em nossa percepção não lhe obscurecendo em nada o realismo porém lhe tirando toda aquela realidade com que o realismo contraria o prazer contemplativo: as asperezas físicas, os acidentes, os pesares e o medo. Nos matos anões dos jardins nipônicos a gente encontra a floresta assu sem que tenha precisão de se defender dela. Isso não intensifica a emoção porém não a diminui porque a transporta. Mas a liberta dos interesses. O mesmo com Don Segundo Sombra em referência à vida pampeana. Só que os japoneses não conseguiram resumir o tamanho dos passarinhos nem das feras. Isso Ricardo Güiraldes conseguiu. O quero-quero canta, o galo-de-briga vence, os caranguejos se estraçalham, os marruás se acompanheiram na tropa definitiva, o homem come, se ri, pensa. No geral nós temos preconceito contra as miniaturas. A obra de arte é sempre miniatura. A grandeza não vem do tamanho das coisas, vem das proporções e da força delas. E não se trata de pintar um por um todos os reguinhos duma impressão digital. Se trata aqui de enaltecer, dando visão imediata mais completa e mais livre, todas as sangas que a vida chovendo abriu no solo do pampa. Foi isso que o poeta fez.

Ricardo Güiraldes deixou obra curta e irregular. Obra de sul-americano verdadeiro inda não pode ter regularidade na grandeza. Porque a complexidade do problema nosso faz a personalidade turtuveear. Porém Ricardo Güiraldes deixou duas obras esplêndidas, uma das quais me parece um dos livros notáveis da época e o mais significativo da literatura argentina contemporânea.

Toda a mocidade argentina da comovida a memória dele. Dizem que era um indivíduo duma atração irresistível.. Sei não. Sei que teve a melhor das atrações. A influência dele foi não de modelo mas de espelho. Quem olha no espelho se enxerga a si mesmo. Libertando a gente nova argentina dum passado falso ele fez mais do que dar a atualidade, de presente pra esses moços. Lhes deu a realidade. Alguns a falsificaram de novo. A culpa não é nem dele nem deles. A falsificação faz parte da existência. E ela que justifica as coisas autênticas. E bom número dos poetas de hoje, por essa influência de espelho que Ricardo Güiraldes teve, gozam na Argentina a lealdade de indivíduos e de nacionais.

  1. Revista modernista argentina sobre a qual o autor falará mais adiante. ↩︎
  2. Denominação da época para projetos de unificação supranacional da Europa debatidos no pós-Primeira Guerra Mundial. ↩︎
  3. Wilhelm Mann, intelectual alemão ligado ao debate sobre povo e psicologia nacional no pós-Primeira Guerra. Em Volk und Kultur (Povo e Cultura), discute o descompasso entre condições históricas e unidade cultural. ↩︎
  4. Alarde ruidoso, fanfarronice ou agitação verbal sem substância. ↩︎
  5. Fórmula proverbial comum no discurso patriótico brasileiro da época. ↩︎
  6. Livro de 1923 composto por ensaios de H. L. Mencken sobre a cultura e a identidade nacionais dos Estados Unidos. ↩︎
  7. Revista espanhola fundada em 1927, responsável pela polêmica do “meridiano intelectual” madrilenho, que propunha Madri como eixo cultural da literatura hispânica. ↩︎
  8. Escritor espanhol tido como vanguardista e criador das greguerías, textos breves que combinam metáfora e humor. ↩︎
  9. Revista modernista brasileira, publicada em São Paulo entre 1922 e 1923, ligada à primeira fase do Modernismo. ↩︎
  10. Revista modernista fundada em São Paulo, em 1926. ↩︎
  11. Revista modernista de Cataguases, criada em 1927. ↩︎
  12. Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade (1890-1954). ↩︎
  13. Escritor modernista brasileiro (1901–1935), autor de Brás, Bexiga e Barra Funda (1927) e Laranja da China (1928). ↩︎
  14. Provável referência ao Compendio de Grammatica da Lingua Nacional (1835), de Antônio Álvares Pereira Coruja (1806–1889). ↩︎
  15. Estudo de Amadeu Amaral (1875–1929), escritor e folclorista brasileiro. ↩︎
  16. Mário ora usa a grafia “coisa” ora “cousa”. ↩︎
  17. Que otimismo, Mário. ↩︎
  18. Ultraísmo foi um movimento literário de vanguarda, surgido na Espanha por volta de 1918 e rapidamente difundido na Argentina, como reação ao excesso ornamental do modernismo hispânico ↩︎
  19. cartaz que nem as paredes leram e foi uma desconformidade formosa e canhestra“. ↩︎
  20. Autor argentino, Güiraldes (1886–1927) escreveu Don Segundo Sombra, romance fundamental da literatura rioplatense e da representação literária do pampa. ↩︎
  21. “pôs em evidência, se não uma nova sensibilidade, ao menos uma reação higiênica”; a frase é de Pedro Juan Vignale (1903–1970), poeta e jornalista argentino, associado ao ultraísmo e às revistas de vanguarda de Buenos Aires nos anos 1920 . ↩︎
  22. Pouco a pouco minguaram os arvoredos, enriqueceu-se de alfafa a terra e clara, como uma aberta entre montes, despovoou-se com suas arideces naturais a pampa. Desde nossa pequena altura de homens ínfimos, cortamos em breve tangente um segmento de planetas. Mais além, fora de suspeita, segue o mundo; mundo vale dizer pampa. Pampa mãe, criadora em mim de uma gota de seiva que quer fazer-se canto./ Com tal insistência haviam me falado do calor, que me consola o não ter-me até agora derretido. Encerrado em meu compartimento, estou em pijama. O vento que, pela janelinha aberta e pelos bocejos de minha roupa, me sopra na carne é tíbio e pesado como um edredom./ Respiro lentamente. Algumas gotas de suor fazem estreitas cócegas frescas pelos meus flancos. Não penso em nada formoso e, forçado a sofrer por horas ainda estas abrumadoras culminações climatéricas, arquejo embrutecido por depressões físicas, como um cão sob a calcária vertical de um sol de festa.” ↩︎
  23. Já citado pouco acima, Ronald de Carvalho (1893–1935) foi poeta, ensaísta e diplomata brasileiro, ligado ao primeiro modernismo; refletiu sobre a paisagem sul-americana e o pampa em ensaios e traduções ↩︎
  24. Minha atenção fica em lugares mais imediatos…↩︎
  25. Interessante notar que em 2025 a situação é a inversa: argentinos apresentam obras mais imaginativas do que os brasileiros, quase sempre simpáticas ao realismo imediato. ↩︎
  26. Anatôli Lunachárski (1875–1933) foi, além de escritor e crítico russo, o primeiro comissário do povo para a Educação na União Soviética; era responsável pela política cultural nos anos iniciais do governo revolucionário. ↩︎
  27. “…hoje, desde que és meu, jazes, sujo de ferrugem / e numa gaveta, com livros, papéis e lápis… / Ora, e o que pensaria de mim o avô crioulo, / punhal, se agora te visse / Mas eu sou um gringo; eu trabalho à maneira dos gringos, / arando a alma humana como se arasse a terra. / E eu, punhal, contigo aponto os lápis”. ↩︎
  28. “Tão monótono, triste e frio / –como uma folha da lei– / vi-o que, compassivamente, lhe escrevi um nome de mulher”. ↩︎
  29. Tens os olhos claros, / os cabelos grisalhos, / a boca amarga, / mãezinha minha / tenho os olhos claros, / os cabelos louros, / a boca amarga, / mãezinha minha↩︎
  30. … à sombra / dos arranha-céus em flor / minha menina ilusão / se ponha a brincar.↩︎
  31. O nome da revista Martín Fierro foi escolhido em referência ao poema El Gaucho Martín Fierro (1872), obra considerada um dos pilares da identidade literária argentina, escrita por José Hernández, na qual o personagem-título representa o gaucho fora da lei e símbolo da “argentinidade”. ↩︎
  32. O texto em questão é “Queja de todo criollo”, publicado no livro Inquisiciones, de 1925. É possível ler o texto em português em MUTUM. ↩︎
  33. Era prudente e calado: costumava rir sem barulho e, sabendo das inseguranças da vida, não proferia um julgamento sem antes colocar a dúvida à frente.↩︎
  34. Persisti na aproximação da felicidade e na privação da dor. Sou essa desajeitada intensidade que é uma alma“. ↩︎
  35. Não tenho aptidões de máquina para transformar belezas em utilidades e se há algo de verdade em meus escritos, a culpa não é minha.↩︎

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