A violenta imaginação

Dono de uma curiosidade onívora, o dominicano Belié Beltrán, ainda inédito no Brasil, constrói uma obra de imagens incômodas que brotam da cegueira

Foto: Acervo pessoal

Apreciador de manuais de anatomia, interessado em aprender técnicas de massagem e física teórica, leitor de Rubem Fonseca e rebatizado com nome de um poderoso loa do vodu dominicano, o escritor Belié Beltrán diz se sentir atraído pela violência e pela transgressão.

A atração pela escrita começou ainda na infância, e se intensificou quando ficou cego e ganhou uma máquina de escrever em braile. Até hoje, quando inicia suas frases, Beltrán retorna ao desejo gerado por uma série de imagens oníricas que persistem desde seus primeiros anos de vida: um entroncamento de estradas, uma mulher de branco, o diabo, uma oração repetida no escuro. Descreve o impulso como investigativo. “Talvez eu tenha querido escrever um livro para entender por que as pessoas sonhavam”.

Autor do livro de contos Pardavelito (2015) e dos volumes de poesia Crónicas a la colmena (2017) e Pájaros en el vértice (2019), o escritor dominicano é dono de um humor truculento. Seus personagens habitam realidades fraturadas e são sempre marcados por uma fisicalidade incontornável, uma atenção ao corpo e ao gesto interrompido. “Os corpos são testemunhas das coisas, sempre. São um registro arqueológico do que se vive”, diz. Talvez por isso sua literatura, mesmo quando delira, jamais se afaste inteiramente do mundo da carne.

Nesta entrevista, Beltrán revisita o desejo infantil de escrever sobre a origem dos sonhos. Mais precisamente, dos pesadelos. Fala também da máquina Perkins como ponto de virada em sua relação com a escrita e reflete sobre a violência imaginada como motor de composição. Acima de tudo, expõe como sua literatura nasce de uma curiosidade onívora. “Tudo o que existe me interessa”, diz. “A gastronomia, as brincadeiras infantis, as lendas, a pintura, a medicina.”

E o horror, claro.


MUTUM: Quando começou a escrever?

BELIÉ BELTRÁN: Essa pergunta é complicada. Me lembro de vários momentos em que tentei escrever algum livro ou texto extenso. Todos esses momentos começam aos oito ou nove anos. Mas, se houve um momento em que conscientemente decidi que me dedicaria à escrita de alguma forma, foi quando fiquei cego e tive minha primeira máquina Perkins.

A máquina Perkins é muito semelhante às máquinas de escrever típicas Olimpia, Olivetti, etc. A diferença é que esta serve para escrever em braile e tem apenas nove teclas. Então, quando me entregaram essa ferramenta na Escola Nacional de Cegos, adquiri o hábito de escrever a toda hora. Assim nasceram os títulos de romances que felizmente se perderam em algum armário cheio de baratas. Ainda me lembro de alguns títulos: Intentos falidos del tiempo; Triste vida alegre. Havia também um conjunto de relatos que eram uma imitação de um livro de Benedetti que li em braile, intitulado El porvenir de mi pasado.

Embora escrevesse desde os oito anos de idade e já tivesse escrito pequenos livros pouco antes de ficar cego, foi na Perkins que decidi seguir o caminho da escrita. E isso continuou quando ganhei meu primeiro computador. E parece que a coisa era séria, porque perdi muitos textos, livros inteiros foram apagados e ainda continuo escrevendo.

Você me disse uma vez que, quando era criança, queria escrever um livro sobre a origem dos pesadelos. Por quê? Você acha que esse impulso inicial ainda permanece em sua escrita hoje?

A verdade é que não me lembro por que quis escrever um livro sobre pesadelos aos oito anos. Talvez tenha a ver com o fato de que eu costumava ter pesadelos recorrentes, um em particular que esteve presente na minha vida até quase a idade adulta.

Sonhava que estava em uma zona rural, um entroncamento de estradas a caminho da casa dos meus avós. E no centro do entroncamento, onde se formava um “T”, perto da casa azul de um professor amigo do meu pai, uma mulher, creio lembrar que vestida de branco, me colocava dentro de um galão e começava a me sacudir até que eu acordasse. Um galão, além da unidade de medida, é um recipiente muito comum neste país, onde geralmente vem o cloro e outras coisas. Nos campos do país, é usado para que as crianças busquem água em rios, riachos e poços. Eu costumava levar um em cada mão. Quando se é mais velho, troca-se o galão por um balde.

A questão é que esse era um dos pesadelos que eu tinha regularmente. Havia outro, embora agora não me lembre muito bem, só sei que era com o diabo ou alguma criatura que se autodenominava assim. Eu acordava e, seguindo os conselhos da minha avó, rezava o Credo ou o Pai Nosso para que tudo passasse. Continuei fazendo isso mesmo depois de deixar de ser crente.

Acho que quis escrever um livro para entender por que as pessoas sonhavam. Investigar e colocar as coisas no papel tem sido um pouco a minha maneira de compreender melhor aquilo que de alguma forma me perturba. Talvez sim, talvez algo do pesadelo permaneça no que escrevo, sobretudo nos contos. A poesia segue um fluxo diferente, creio eu.

Como são os seus sonhos? Você sonha com frequência, toma notas, eles se transformam diretamente em matéria narrativa?

Hoje em dia, acho que tenho muito controle sobre o que sonho e isso evita, na maioria das vezes, que sejam sonhos realmente estranhos. Mas, sim, muitas das coisas que já escrevi foram primeiro um sonho. Por exemplo, o conto “Queda algo más que saber”, de Pardavelito, surgiu inteiramente num sonho.

Tenho outros relatos, inéditos, que foram sonhos. Um deles se chama “Limón com yerba buena yarará”, sobre algumas cobras e um contexto familiar muito obscuro. Sonhei exatamente como escrevi. O outro é “Limar tijeras arlequín”, sobre um escritor dominicano muito importante para alguns. Sonhei com sua morte algum tempo antes que ela acontecesse.

Não tenho o hábito de anotar os sonhos, a menos que me chamem a atenção de alguma forma. Em algum momento, quis fazer um diário de sonhos, imitando um pouco o diário que Fogwil fez, mas sempre fui preguiçoso demais para a disciplina necessária aos diários.

Agora só tenho sonhos incontroláveis quando não coloco algum áudio para dormir. Costumo deitar ouvindo o YouTube, especificamente canais de física, história ou literatura, então meus sonhos costumam se misturar com o que estou ouvindo.

Mas, recentemente, dormi sem YouTube e sonhei que estava em Villa Consuelo, o bairro de Miguel De Vallester.1 Eu andava com um grupo de meninas porque minha bengala tinha caído, elas me disseram para esperar na calçada, que iriam buscar minha bengala na loja do Miguel. Fiquei lá, um sujeito mais ou menos gordo ouvia música em um rádio a pilhas e me convidou para ir a uma escola ver as adolescentes que sairiam das aulas ao meio-dia. Recusei, sem muito alarde, e então, um pouco mais tarde, senti uma facada no abdômen, bem à direita do umbigo. A dor foi intensa e vi que era o sujeito que estava me esfaqueando. Há dois dias tenho essa imagem na cabeça e suspeito que acabarei escrevendo sobre isso de alguma forma, se continuar conservando todos os detalhes que tenho em mente.

Alguns contos de Pardavelito apresentam um humor perverso, muitas vezes violento, que faz rir e gera desconforto ao mesmo tempo. De onde vem esse humor em seus textos?

Em sentido geral, tenho um humor muito truculento. Sinto-me muito atraído pelo desconforto, pela violência e pela transgressão. Suspeito que perdi um pouco da naturalidade com que encarava essa questão em Pardavelito, mas, mesmo assim, isso vem diretamente do fato de que me dedico sempre a imaginar cenas violentas.

E enquanto escrevo isso, poderia dizer que é um pouco como Etienne, o personagem de Rayuela que tinha um álbum com imagens de todos os tipos de torturas. Meu humor é semelhante. São imagens do monstruoso e do horrível. Algumas vezes fiz stand-up comedy e também era com um pouco de humor negro, só que nos meus textos me deixo levar e cruzo alguns limites. Talvez seja por isso que gosto tanto dos contos de Rubem Fonseca.

Pode nos falar mais sobre isso?

Sobre Rubem Fonseca, posso dizer que é uma figura que me interessa muito. Como personagem, é alguém muito singular, com tudo isso de ter sido policial. Ainda assim, suas histórias não se deixam reduzir ao universo do crime ou ao gênero policial. Elas apresentam, antes, um universo de violência de ordem moral muito forte. Há aquele relato do pequeno-burguês que, para amenizar o tédio da rotina diária, para sentir alguma emoção, costumava sair em seu carro de luxo para atropelar transeuntes.2 Depois, há aquela cena brutal de um romance em que um homem ameaça outro com castração e, posteriormente, descreve com muita precisão o momento em que lhe cortam os testículos e como isso é feito.3 Ou seja, Rubem Fonseca leva a violência ao extremo, mas também se encarrega de mostrar as partes mais monstruosas das pessoas a partir da normalidade, como aquele homem que, de um dia para o outro, passa a se excitar sexualmente apenas com mulheres feias, em meio a uma série de questões de moral religiosa. Enfim, Fonseca é um narrador que me interessa bastante. Seus relatos são muito poéticos, no bom sentido do termo.

Muitos dos seus narradores parecem habitar uma fronteira entre a lucidez e o delírio. Você considera esse “entrelugar” como um tema ou método de composição?

Não considero. Na verdade, suspeito que essa seja a natureza dos personagens que se originam em Pardavel. De qualquer forma, esse tipo de loucura tem muito a ver com coisas que já vi nas pessoas, apenas ligeiramente exageradas. Bem, às vezes muito exageradas. Mas essa linha extrema vem do fato de se originarem em Pardavel, o grande personagem é esse povo que cospe pessoas com a percepção da realidade fraturada.

A infância aparece em seus contos como um território ambíguo – inocente e cruel ao mesmo tempo. Qual o papel da memória infantil na construção do seu imaginário?

Ultimamente suspeito que a memória é muito importante. Antes, não pensava dessa forma, você tinha personagens como Tony ou Emily, que foram concebidos como figuras de uma obra criativa. Mas, olhando para trás, vejo que sim, que há muito do que compõe a infância ou a naturalidade dos meus personagens, tanto de Pardavelito quanto de livros recentes, que nasce em relatos, experiências ou no espírito de épocas muito anteriores. Mesmo em textos que são mais ou menos dessa época, como “Regreso con café en la mano”, a memória é fundamental. E aqui, parafraseando um escritor e pintor dominicano, José Carlos Nazario, como a memória não é um documento histórico objetivo, pode-se permitir a liberdade de interpretar o que se lembra. E no meu caso, não falo nem mesmo de lembranças próprias, mas de memória adquirida em muitas ocasiões.

Por exemplo, um irmão meu leu “Hollywood  apunta a la cara, Lorenzo”, e me disse que estava narrando a captura de um vizinho nosso que a polícia prendeu de madrugada em sua casa. No entanto, embora eu saiba que esse episódio é verdadeiro, não me lembro dele, exceto pelo que ele e meu pai contam.

Há uma presença muito forte do corpo em seus textos: corpos feridos, desejosos, deformados, mortos. O que lhe interessa narrativamente nessa materialidade da carne?

Penso que os corpos são testemunhas das coisas, sempre. São um registro arqueológico do que se vive. Não me lembro se foi Richard Feynman quem disse que o tempo não existe como entidade, mas sim que é a interpretação que damos ao efeito de degradação das coisas em sua evolução natural. Então, uma nova ruga, a moleza de um dente ou a porosidade dos ossos indicam o passar de algo que decidimos chamar de tempo, que não existe em si mesmo e que é uma ficção sobre a qual se baseia todo o conhecimento humano. Ou seja, você tem a física, tanto a clássica quanto a quântica, ambas dependendo completamente do estudo do tempo e do espaço, mas, praticamente nenhuma das duas coisas existe na realidade.

A única coisa real, até onde podemos intuir, é a matéria. E, no que concerne ao ser humano, é o corpo. Então, o fato de um homem estar constipado ao longo de seu arco dramático deve significar algo; mas o fato de um corpo, ao cair pela janela, ter uma postura aleatória também deve significar algo.

Enquanto estudei massagem, tentei entender algo sobre os corpos. Depois, sempre quis estudar medicina e dediquei muito tempo consumindo materiais de anatomia, e hoje penso que um corpo também é uma forma de compreender o que significa a vida em seu sentido estritamente mecânico.

De que maneira começou a sua vida como leitor?

Comecei sendo um tipo que lia sem discriminar nada. Gostava tanto do Código da Vinci, de Dan Brown, quanto de Benito Pérez Galdós ou Os Miseráveis, de Victor Hugo. Tranquilamente podia ler tanto um livro de autoajuda aos quinze anos quanto A Odisseia ou Drácula. Posteriormente, adquiri a capacidade de discriminar.

Minha maneira de ler era sem método, mergulhando em um livro até consumi-lo, sendo tudo o que existia ali dentro. Hoje ainda há um pouco disso nos meus hábitos de leitura, embora eu também consiga me surpreender com a técnica. Mas, mesmo assim, tento não ler muito em termos de técnica narrativa. Em essência, continuo sendo o mesmo sujeito que lê para se surpreender. E tenho a facilidade de que, quando gosto especialmente de um livro, consigo esquecê-lo quase completamente, para que ele me surpreenda novamente quando o releio. Por exemplo, li algumas vezes O Falcão Maltês e, se você me perguntar quem é o criminoso, não faço ideia. O mesmo acontece com As Mil e Uma Noites, li o livro várias vezes e sempre há contos que me surpreendem como se eu nunca os tivesse lido.

Como é o seu trabalho com a linguagem: primeiro surge a imagem, a cena ou a frase? Você reescreve muito ou prefere conservar a energia inicial do texto?

Isso depende muito do texto. Há relatos como “Magenta”, em que desde o início eu quis que a linguagem fosse parte natural da história. O mesmo acontece em “Como se sacan las manos de los sueños”. Mas há outros, como Con esta flor la primavera, um romance que acabei de escrever, em que a história está acima da linguagem. Mas, em todos os casos, a imagem é o que prevalece. Pode-se dizer que sou quase imagista, com o tempo fui perdendo a brincadeira com a linguagem em favor das imagens. Embora suspeite que o romance que quero escrever agora seguirá mais o caminho da experimentação da linguagem.

Há ecos do cinema, dos quadrinhos e da cultura pop espalhados pelo livro. Que outras artes contaminam ou permeiam sua escrita?

Tudo o que existe me interessa. A gastronomia, as brincadeiras infantis, as lendas, a pintura, a medicina. Penso em um relato de Principios Elementales e ele está repleto de matemática, mas há outro em que definitivamente há todo um imaginário mágico-religioso. Tudo o que existe me interessa para a escrita, e isso é assim porque, em geral, tudo me interessa como matéria de curiosidade.

O que te atrai especificamente na forma do conto?

O fato de ser como um disparo. Você pode contar uma história em uma única jornada de trabalho intenso. E depois se dedicar a corrigir, desmontar, ajustar e polir. Mas o efeito de unidade que você consegue ao escrever de uma só vez é muito potente.

Além disso, o conto como artefato permite comprimir o mundo em eventos e imagens. Então, há uma força poética que o romance não possui, o que lhe permite uma profundidade muito difícil de conseguir em textos mais longos. O romance é como um rio baixo, que chega muito longe, mas o conto é como um lago muito profundo, apesar de uma superfície bastante pequena. Claro, há rios e há rios, assim como há contos e há contos; mas você entende o que quero dizer.

Há algo de lúdico na crueldade de seus relatos, como se escrever também fosse uma forma de brincar com o perigo. Para você, a escrita tem algo dessa brincadeira?

A escrita, sobretudo nos relatos de Pardavelito, é muito lúdica. Há jogos de imagens como em “Retrato Mairim”, onde a ideia é que tudo se desloque, e outros em que o mecanismo lúdico passa por desarticular a linguagem e os pontos de vista, como em “Hasta en su enterro Diana”. Acho que se não houvesse algo de jogo nessa escrita, faltaria alguma coisa. E talvez seja por isso que li tanto Gianni Rodari e sua Gramática da Fantasia.

Seus textos parecem dialogar com as tradições do fantástico, do terror e do absurdo latino-americano, mas sem se prender a rótulos. Você se reconhece em alguma tradição literária específica ou prefere evitar essas filiações?

Não evito nem me identifico. Em vez disso, converso com tudo. Deixo-me influenciar pelo ambiente e pelo que surge. Meus trabalhos em bairros da capital me levaram a um relato como “Regresso con café en la mano”, mas Piglia me conduziu a “Cómo se sacan las manos de los sueños”, apesar de esse texto não ter nada a ver com sua obra. Então, o que faço é pegar e deixar, dialogar, fazer perguntas a mim mesmo. Há textos que ficaram ressoando em mim depois de ver uma entrevista ou depois de uma conversa com alguém, nem sempre sua origem estava na literatura.

A literatura produzida na República Dominicana ainda não é muito conhecida no Brasil. Que livros e autores você recomendaria aos nossos leitores?

Em poesia recomendaria Hacia Yucahu, de Ricardo Cabrera; Chinchina busca el tiempo, de Manuel del Cabral; todo Franklin Mieses Burgos y Tantas veces la palabra miedo, de Leri Laura Piña. Há outra quantidade considerável de poesia, desde Miguel de Vallester até Manuel Rueda, mas podemos deixar por aqui.

Na narrativa, incluiria Pedro Peix. Foi com a morte dele que sonhei antes que de fato acontecesse. Rey Andujar tem uma obra narrativa com discurso próprio. Kianny Antigua tem alguns contos com muito senso de humor. O romance Mátalo, de Vladimir Tatis Pérez, na minha opinião, é o grande romance da década, embora isso seja pomposo; mas, sinceramente, é um romance muito bom.

E da literatura latino-americana em geral, quais são os livros mais importantes da sua biblioteca pessoal?

Bem, aqui posso dizer que volto regularmente a Ricardo Piglia, sobretudo ao crítico, embora o tenha conhecido por Respiração Artificial. Os contos de Borges. Os contos de Fogwil. Os livros de Mario Bellatin, sobretudo Salão de Beleza, La escuela del dolor humano e Flores. Gosto bastante de Santiago Davove. Já mencionei antes Rubem Fonseca. Da mesma forma, sempre volto a Leila Guerriero, é alguém com quem adoraria ter muitas conversas. Também adoro María Luisa Bombal e Helena Garro, das três li quase tudo em mais de uma ocasião. Os ensaios de Tamara Kamenzain são lindos, assim como os de Margo Glantz. Margo tem um livro chamado Zona de Derrumbe, no qual fala sobre o corpo e como somos percebidos em função de nossos corpos, algo que me interessa muito.

Recentemente, descobri a poesia da equatoriana Valeria Guzmán, que me interessa bastante pelo uso que faz da linguagem. Além disso, costumo voltar muito aos textos de mitologia e lendas latino-americanas. Eu tinha um dicionário de mitos e lendas e alguns textos de lendas que costumava ler e que revisito de vez em quando.

Por fim, você poderia nos contar sobre a origem do nome Belié Beltrán e por que o escolheu como seu nome literário?

Tem a ver com o fato de que meu primeiro nome me parece entediante. É uma palavra com uma cor terrosa, como a da madeira manchada das caixas em que vinham os arenques importados para o campo.

Sou um pouco sinestésico, associo tudo a cores. E essa cor me parece pouco expressiva.

Então, enquanto conversávamos com um grupo de escritores na Zona Colonial, começaram a me chamar de Belié Beltrán. Essa é uma associação fonética do nome Belié Belcán, que é uma figura da religiosidade popular africana ligada ao arcanjo São Miguel. Belié é aquele que derrotou o diabo com sua espada, mas também é uma figura que usa cores, fuma, bebe e tem uma personalidade muito forte.

E Belié tem uma cor azul-elétrico, como a tinta das canetas Paper Mate ou BIC. Justamente parte desse azul está em Beltrán, e por isso decidi ficar com esse batismo. E se é certo que ninguém escolhe seu santo, então Belié me escolheu e eu não sou ninguém para lutar contra forças espirituais superiores.

  1. Poeta dominicano autor de El amor es la bilis de todo (2023). ↩︎
  2. Beltrán se refere aos contos “Passeio Noturno I” e “Passeio Noturno II”, presentes no livro Feliz Ano Novo, de 1975. ↩︎
  3. Se trata de uma cena do romance Bufo & Spallanzani, de 1985. ↩︎


Belié Beltrán nasceu em Monte Plata, na República Dominicana, em 1989. É autor do livro de contos Pardavelito (2015), e dos livros de poemas Cronicas a la colmena (2017) e Pájaros en el vértice (2019).

Consulte a página de Belié Beltrán no acervo de MUTUM
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