NÃO restam BONECAS SEM CABEÇA
conto de Belié Beltrán

Prefiro degolar mulheres cegas. Seus olhos, quando os possuem, tornam-se esferas descoloridas que não encontram saída. Empalidecem como se a incerteza semeasse flores em suas bocas. Muito diferente das mulheres videntes, que se desesperam ao ver a navalha. Chutam, às vezes arranham. Dão um espetáculo pouco artístico.
Com as cegas sinto maior prazer. As sensações assumem formas que se tatuam nas bordas da ferida.
Qualquer matador de quinta, qualquer violadorzinho de quintal degola uma mulher. Só um artista reconhece o valor da cegueira ao passar a faca. Só um artesão encontra o corte que transforma a garganta na resposta à vigência da arte.
“Próxima estação: Manuel Arturo Peña Batlle, nas proximidades de Villa Juana e La Fe”. As barbaridades que Leandro contava me davam náuseas. Eu tenho uma irmã cega. No papel, era ela quem eu via, não qualquer mulher.
No metrô, as imagens do túnel se misturavam com as palavras do meu amigo. Ele me esperava em casa. Todas as semanas saíamos para beber um pouco e bater papo.
O prazer está nas primeiras gotas de sangue, ver a careta de dor. Os olhos fechados dão a impressão de um fundo duplo na escuridão da privilegiada. Uma espécie de representação diante de um teatro às escuras. Em momentos de emergência, escolho uma vidente e, minutos antes do degolamento, pico seus olhos com uma agulha. Mas não é a mesma coisa, lhes falta a experiência, a adaptação à cegueira, o andar de marionetes suspensas por fios. Passam de mulheres a bonecas desajeitadas; perdem a graça.
Amo as mulheres com glaucoma. Quase sempre lhes extirparam os olhos e colocaram implantes. Gosto das que têm próteses de pupilas castanhas ou mel, embora não despreze as de outra cor. As que têm retinite têm um encanto diferente. Às vezes ainda percebem a luz. Então, as imagino procurando minha sombra após o primeiro corte. As beijo contra a luz e termino de cortar.
Euri usa próteses. Fiquei com medo ao pensar que ela estava sozinha em casa com ele. Ainda faltavam algumas estações para eu sair do metrô. Villa Mella parecia o lugar mais distante do mundo.
Euri teve os olhos extirpados devido a um glaucoma. Lembro-me dela chorando, tentando tirar a gaze após a cirurgia. Também quando lhe explicaram que ela teria que usar próteses. Ela não se consolou, por mais que lhe disséssemos que eram olhos grandes e bonitos.
Descobri o prazer de degolar por acaso. Quando era pequeno, em uma das férias em Frías, minha avó me deixou matar uma galinha. A imagem do corpo com a cabeça inclinada, vomitando sangue pela traqueia, me fascinou. A avó teve que sair para perguntar se eu estava bem, pois demorava muito para voltar com a carne. Por um tempo, esqueci minha primeira obra. Mas, anos mais tarde, adquiri o hábito de pedir a uma namorada que me deixasse tirar um pouco de sangue dela. Ela não me levava muito a sério, nem eu.
Uma noite, ela me passou uma faca, rindo enquanto eu hesitava em fazê-lo. A dor sempre fez parte de nossas relações, embora eu acreditasse que não fosse capaz de machucá-la. De vez em quando, lembro-me de seus olhos surpresos e do espasmo de seu corpo. Eu a beijei quando os estertores terminaram.
Tomei gosto, comecei a melhorar a técnica. Um ano depois, estrangulei a primeira cega. Ela estudava psicologia, acho. Nós nos conhecemos numa noite em que a acompanhei para pegar um ônibus. Ela achou muito engraçado quando eu elogiei seu pescoço. Nós nos ligamos algumas vezes antes de sairmos juntos.
Na cama ela não era ruim, as cegas costumam ser muito boas. Ela se movia como se a visão que lhe faltava tivesse ido para a região púbica. Quando terminamos, eu disse que queria cortar seu pescoço com uma navalha.
A acariciei um pouco mais, me coloquei debaixo dela, a abracei. Ela então pediu: “Me masturba”. Ainda estava em cima de mim quando lhe cortei a traqueia. Me afastei dela para ver a sua dança.
Antes de chegar a Guaricanos, parei de ler. Conhecia Leandro há mais de cinco anos e, às vezes, até pensava que ele era meio viado. Embora chegasse a me apresentar uma namoradinha ou outra. Mas o Leandro do papel não tinha nada a ver com aquele sujeito que saía comigo para La Zona, ou aquele que comprava café para jogar nos contêineres. Esse tinha saído de alguma história de filho da puta.
Euri costumava se dar bem com ele. Eles saíram algumas vezes, ambos dizem que apenas como amigos. Às vezes ela ligava para ele e ficavam horas ao telefone. Na mão, eu tinha mais da metade do documento ainda por ler. Não queria continuar lendo, nem pensar na minha irmã sozinha com ele em casa.
As outras foram rotina, a típica disciplina do artista. Até que consegui encontrar um filão de cegas. Tinha que encontrar uma maneira de me aproximar delas sem que reconhecessem minha voz. No princípio, cometi alguns erros. Mas depois, com mudanças de nomes, às vezes de objetivos, uma por uma, as mulheres foram desaparecendo em diferentes lugares.
As mais fáceis de caçar encontravam-se em El Cibao. Estavam sempre superprotegidas e faziam de tudo para se sentirem fora do cerco em que viviam. Acho que foi a melhor forma de fazer turismo interno.
Faltava uma estação para eu descer. Em seguida, pegaria um ônibus, Leandro já havia me enviado uma mensagem no celular reclamando por eu estar demorando tanto para chegar. Me distraí por um segundo com alguns estudantes da UASD. Voltei a ler, embora tivesse medo de saber se ele me contaria os planos que tinha. Sexo não me interessa tanto. No máximo, sentir o calor do primeiro jato. Depois, é só arte experimental. Não nego que tenho algumas ereções e que o sêmen no sangue me impressiona. Isso é secundário. O principal é a novidade, descobrir novas formas de expressão. Me atormenta a possibilidade de me repetir, de consolidar um estilo e me tornar monótono. Não planejo as criações, embora identifique as próximas privilegiadas. Conheci duas que poderiam me consagrar.
Subi os degraus correndo. Pouco antes de chegar à porta de entrada do apartamento, caminhei calmamente. Abri a porta de casa. Euri e eu nos dávamos bem. Ela veio morar comigo quando terminou o ensino médio. Queria estudar música no Conservatório, mas lhe disseram que lá os cegos não podiam entrar. Ela foi estudar na Universidade Autônoma.
Leandro estava sentado na sala, assistindo televisão. Acho que vi um brilho de zombaria em seus olhos. “Fala aí, cara”, eu disse e segui para dentro da casa. Tentei me acalmar, fui primeiro para o meu quarto. Deixei o envelope sobre a cama. Então caminhei em direção ao quarto de Euri, sem fazer barulho.
Estava deitada, o quarto na penumbra. Vestia apenas calcinha e a camiseta de dormir. Por um segundo, a vi com o pescoço cortado. Ela estava estendida sobre os lençóis, com a cabeça inclinada numa posição impossível. Mentalmente, imaginei o quarto banhado em vermelho. Ouvi, em meu sonho, seu afogamento em uma última tentativa de respirar. As pupilas de suas próteses, mergulhadas em um copo na mesinha de cabeceira, cruzaram o seu olhar com o meu. Respirei calmamente, ajeitei meu pau na cueca e fechei a porta ao sair.
*
Belié Beltrán nasceu em Monte Plata, na República Dominicana, em 1989. É autor do livro de contos Pardavelito (2015), e dos livros de poemas Cronicas a la colmena (2017) e Pájaros en el vértice (2019).
O conto acima, traduzido por Luiz Guilherme Fonseca, pertence ao livro Pardavelito (2015).
Consulte a página de Belié Beltrán no acervo de MUTUM
Leia a nossa entrevista com o autor em Em que pensa