Sete torres de areia

poemas de José Ramón Sánchez

“Santiago de Cuba: Street scene” (1885), Winslow Homer. Crédito: Artvee

TEXTUAL

Cuidado com o que escreve, terrorista mimado:
basta um passo em falso e acabará num abismo.

E o menos importante será o fracasso criativo.
Tudo o que disser estará equivocado.

Nem cristãos, nem judeus,
nem muçulmanos, nem ateus,

nem poetas te aguentam.
Quer ser tão neutro que não é nada.

Mas assim constrói a sua comédia
e imagina finais impossíveis.

Por exemplo: ofender tanto ao império,
que te mandem de Guantánamo à Guantánamo reduzida.

Outros ofendidos não se dão por entendidos:
Guantánamo lhes parece suficiente castigo.


Poemas traduzidos por Marcelo Freddi Lotufo


TOP TEN

Antes dos presos muçulmanos,
apenas existíamos,

não éramos nada para o mundo exterior
e sua moda de pensar nos outros.

Mas bastaram uma centena de inimigos,
mais ou menos culpados ou suspeitos de terrorismo,

e na verdade apenas existentes,
para sermos levados em conta

por quem concede visibilidade neste mundo,
de profundidade mental comparável

a uma folha de papel jornal.
(A largura da galáxia, vis-à-vis a sua extensão,

é praticamente insignificante:
somos de uma superficialidade que se desvanece).

Depois dos convenientemente mujahidin
o mais provável é que saiamos

do Top Ten da Insignificância.
E o pior é que não podemos fazer

absolutamente nada para impedi-lo.
A não ser esperar que um dia abandonem a base

porque encontraram meios melhores de nos foder.
Atacar (com minúcias) aos fortes é fácil:

não são tão melindrosos como os fracos que têm poder.
Um fraco com poder não admite que um fraco sem poder,

ainda menos de seu próprio bando, dobre a aposta.
Que nenhum filho da puta creia que lhe faço

eco com meus poemas.
Nem me inclua na lista de êxitos de sua política cultural.

Estávamos aqui antes que eles chegassem.
Seguiremos aqui depois que partirem:

os presos, os marines e a brigada da fronteira.
Nós somos Gitmo, o único que conta,

os demais são efêmeros, a fama, adjetiva à terra.
Lhes emprestamos o nome, mas não o tomem.

*

AS TORRES DE AREIA

Ao caírem as torres de Manhattan
começou

a contagem regressiva da nossa liberdade.
A queda imparável da areia

reduzia a chance de escaparmos.
Alguns fomos surpreendidos

sem saber que devíamos fugir.
Mas aqueles que fugiam desde sempre

já estavam presos quando o pó
nem havia terminado de voar.

Um relógio é uma torre que desmorona
mantendo a forma porque flui

a areia até embaixo e adquire
a forma que tinha, mas ao contrário.

E uma torre é um relógio que desmorona
e perde a sua forma para sempre

porque o tempo que tem sem medida
é o tempo brutal da vingança.

Ficou plana como um deserto
a paisagem de escombros

e entre suas ruínas fumegavam
os gritos e os socorros.

leia a entrevista de
José Ramón Sánchez

*

YA UMMI
[ZUHAYR BIN ABĪ SŪLMĀ]

Onde está o poeta que canta a minha tristeza?
Eu, Omar Khadr, 15 anos, acusado

de ter matado com uma granada
o Delta Force Christopher Speer,

que entrou a força em nossa casa-
oficina de explosivos,

me fiz homem prisioneiro.
“A você não agrada a verdade,” mas,

“Quem com armas não defende sua honra,
verá sua honra abatida.

Quem não violenta, será alvo de violência.”
E deus sabe como fomos

objetos de todas as violências.
Eu me distraio no medo do cárcere

e não sei o que faria em liberdade: se voltaria à luta,
ou ficaria num canto chamando por minha mãe.

A mãe está distante e não é protagonista
de um show sem pé nem cabeça.

Depois de feito o submarino,
lançada a granada, delatado o amigo,

escrito o poema, cumprida a greve
de fome e a alimentação forçada;

depois de todas as farsas, aparece a mãe
e recolhe o seu filho que chora pedindo peito.

O chamado à mãe é a grade que detém o combatente.
Ninguém sabe a coragem que administra a covardia.

Depois da expulsão não podem te devolver a inocência.
O pranto pela mãe soa igual não importa em qual língua.

“A estupidez do velho nunca se torna sensatez.
A estupidez do jovem pode tornar-se sensatez.”

*

GLAUCOMA
[AHMED ERRAICHIDI]

Para Esther Whitfield, que traduziu o encontro

Olhando pelo olho de uma agulha.
Apertando as bolas do Império.
Ganhando o paraíso sem sabê-lo.
Nem o Hubble capturando as idades

mais antigas do cosmos se compara
comigo explorando os arredores
de uma cela no Campo de las Ratas.
Eu era o homem olho, o Polifemo

que a Ninguém combatia com olhares.
Antes me chamavam General:
um tipo agigantado de voz trovejante.

Agora sou o rei dos fogões
que convida seus captores para comer:
nenhum tem respondido ao meu chamado.

*

ADVOGADOS DO DIABO

Para Don Edward Walicek, advogado defensor da poesia

Advogados do Diabo, o ganhador
de todas as disputas sem importância,

procuram nos submeter com suas leis
e uma obediência explícita ao seu amo.

Não querem que sejamos mujahedins,
mas sim simples cidadãos domésticos:

um aborrecimento que devem aprender a controlar.
Eu lhes digo “não” quando lhes digo “sim”,

e eles fingem acreditar que estou vencido,
mas ninguém pode aplacar a justiça

que vamos lhes cobrar sem demora,
até a última hipocrisia

que nos imputaram.
Seremos implacáveis por horror

ao defeito da sua impiedade.
Os usamos, como eles a nós,

não importa para quais fins.
O único que importa é o castigo

que aparenta nos defender.
E de quem nos defendem,

senão de nós mesmos?
E a quem amparam,

servindo-lhes de escudo legal,
se não aos nossos captores?

Seguiremos com a farsa até a morte
e podem apropriar-se do planeta,

que nada terão alcançado.
A fé é uma lei imperfeita.

*

JOINT TASK ROCK
[KURT COBAIN]

Violado, pelo nariz e pela traqueia
Rape me, rape me my guardian.

Ensure dizem para essa coisa.
Uma coisa que esfola.

Ensure, até as tripas:
se não come, te esfolam.

Rape me, rape me outra vez
Pelo nariz e pela traqueia.


José Ramón Sánchez Leyva nasceu em Guantánamo, Cuba, em 1972. É autor dos livros Aislada noche (Letras Cubanas, Havana, 2005), Marabú (Torre de Letras, Havana, 2012), El derrumbe (Letras Cubanas, Havana, 2012), 22 (Letras Cubanas, Havana, 2017), Talibán (Casa Vacía, Richmond, 2018), The Black Arrow (Linkgua Ediciones, Barcelona, 2023, traduzido para o inglês por Esther Whitfield e Katerina González Seligmann). Leyva colaborou no livro Guantánamo and American Empire. The Humanities Respond (Palgrave Macmillan, Nova York, 2017) e organizou a antologia Nocaute: 6 poetas Cuba Hoje (Edicões Jabuticaba, São Paulo, 2017). Atualmente é editor da revista La Noria. Estes poemas pertencem ao livro inédito Torres de arena.

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