Escrever entre apagões

Em uma conversa pontuada por interrupções forçadas, o poeta cubano José Ramón Sánchez comenta como tem sido escrever durante a crise política e social no país

Foto: Acervo pessoal

O poeta cubano José Ramón Sánchez Leyva, 54 anos, tem demorado até duas semanas para responder às mensagens que chegam em seu celular. Não por escolha. Quando encontra um sinal de internet, corre contra o tempo para ler as notificações e disparar seus textos antes que a energia elétrica seja interrompida. A empreitada, muitas vezes, é falha. Os apagões no extremo leste de Cuba ocorrem a cada pouco e podem durar mais de 20 horas. 

A conversa com MUTUM se deu nesse cenário instável. “Há pouca eletricidade e pouco dinheiro em espécie circulando”, disse José Ramón, em julho de 2026. ”Estamos perto de não conseguir comprar comida ou carvão para cozinhar porque os revendedores não aceitam pagamentos por transferência. O que se supõe que devemos fazer?”

Combativo, ácido e lírico, José Ramón Sánchez Leyva vem construindo uma poesia em que a experiência pessoal dialoga com as catástrofes sociais e históricas de Cuba. Como resultado, seus poemas de tom intimista deram lugar a composições mais diretas, incisivas, vingativas. Bélicas. Nesse percurso, a Base Naval de Guantánamo, enclave militar mantido pelos Estados Unidos em território cubano desde 1903, se tornou um dos principais temas de sua obra. Seu próximo livro, Sete torres de areia, usa a base norte-americana como ponto de partida para versos mordazes e insurrecionais. (Leia aqui alguns dos poemas adiantados para o MUTUM.)

Na troca de mensagens que se prolongou por meses, o poeta comentou sobre como a deterioração das condições de vida em Cuba tem transformado não só seu modo de vida, mas também o modo como ele pensa sobre literatura. 

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Você tem conseguido escrever desde o agravamento da situação política do país?

JOSÉ RAMÓN: Ah, sim, tenho conseguido escrever, de forma convulsiva, vingativa, em meio aos horrores da vida cotidiana: pouco dinheiro, pouca comida, pouca eletricidade, muito calor, chikungunya e mosquitos, além de uma multidão de donos de mipymes, empresários, empreendedores, oportunistas e funcionários intratáveis, que administram a seu bel-prazer a miséria alheia. São as “forças vivas” do curral. A escrita, em períodos intensos entre longas pausas, tornou-se minha forma de responder a qualquer crise, pessoal ou política.

De que modo a situação calamitosa tem interferido na literatura local?

Várias revistas deixaram de ser impressas ou, ao que tudo indica, deixaram de existir, embora sua morte não tenha sido oficialmente declarada. Muitos livros são publicados apenas em formato digital, à espera de papel para que possam ser impressos. Fomos obrigados a nos tornar escritores — e leitores — digitais, mesmo sem tantos leitores de e-book e outras quinquilharias do gênero. Pela primeira vez, a Feira Internacional do Livro foi adiada.

A emigração de muitos jovens escritores, ou aspirantes a escritores, interrompeu ou alterou a forma de funcionamento da geração literária mais recente. Ao mesmo tempo, percebe-se um grande renascimento religioso: há muitos escritores cristãos ou ligados a alguma outra crença em um país de aparência oficial ateu-socialista.

Isso me lembra o que dizia um piloto aliado durante a Segunda Guerra Mundial, ao sentir a explosão das bombas antiaéreas alemãs sob seu avião: “Sem dúvida, nessas horas a gente descobre imediatamente a religião”. Nossa Guerra Total de apagões e fome desperta os impulsos divinos.

Você vê ainda vê as pessoas interessadas em literatura? 

Sim, os cubanos ainda buscam o consolo da literatura; menos, é verdade, do que procuram carvão ou lenha para os fogões, mas ainda resta algum interesse, essa pequena chama alimentada por corações solidários. O panorama literário está esgarçado, mas continua existindo.

Você tem escrito bastante sobre a base de Guantánamo, que fica perto de sua casa. Poderia comentar por que ela se tornou seu principal tema nos últimos anos?

Fui passando de uma poesia intimista, barroca, labiríntica, metafórica e obscura para uma poesia cruamente civil, embora ainda centrada na experiência pessoal. O passo seguinte, talvez inevitável, porque cedo percebi que nunca mais repetiria aquele turbilhão inicial de metáforas, foi escrever poemas nos quais a política, a história e a geografia ocupassem o lugar principal, mas sempre atravessados por um tom de violenta intensidade pessoal, inclusive nos poemas em que os protagonistas e sujeitos líricos são outras pessoas, que habito por dentro e que me servem de máscaras ou personagens.

Assim, a base naval de Guantánamo foi o grande tema, ainda muito pouco explorado na literatura cubana, que eu tinha mais à mão. Foi uma temporada longuíssima de aprendizado, escrevendo em nome de um território e de seus habitantes. Os poemas sobre a base naval se distribuem em três etapas: “La flecha negra”, “Torres de arena” e “Una mancha de luz”, além de um apêndice autônomo, “No es país para ingleses”.

Não há uma influência muito reconhecível em seus poemas, sobretudo os mais recentes. Em quais escritores você se inspira?

Quando comecei a escrever poemas, aos 22 anos, por volta de 1995, os escritores que mais me influenciaram foram Kafka, Lezama e Borges, embora a influência de Kafka tivesse começado muito antes de eu escrever uma única linha. Também Baudelaire, Rimbaud, Rilke e alguns outros.

Com o passar dos anos, as influências se tornaram mais variadas e talvez também mais difusas. Já não nos deixamos influenciar tanto por determinados autores e livros, mas por uma infinidade de detalhes encontrados em muitos autores e obras, uma espécie de mosaico gigantesco de influências que se transforma ao ritmo dos interesses e desejos de cada estação literária.

 E como foi o seu acesso aos livros?

Tive acesso aos livros desde muito pequeno. Na casa dos mais velhos da família, não havia tantos livros, mas sempre havia alguma coisa para ler: jornais, livros, revistas. Eu lia até os relatórios sobre o avanço da safra açucareira.

Minha mãe também se encarregava de comprar livros para mim, entre eles Tartarín de Tarascón, de Alphonse Daudet; Pillastre, de Sterling North; Los tres gordinflones, de Yuri Olesha; Tom Sawyer, de Mark Twain; e versões muito abreviadas e ilustradas da Ilíada e da Odisseia. Havia ainda livros soviéticos da editora Progresso, que um de meus tios, comunista, conseguia.

Esse tio comunista também tinha as obras completas de Lênin, em belos volumes brancos com letras vermelhas, mas não me lembro de tê-los folheado. Eram um totem com seu tabu, uma muralha ilustre e intangível, como as muralhas de um Kremlin familiar.

Naquela época, os livros eram muito baratos em Cuba — e ainda são —, em edições populares lendárias, como as da coleção Huracán. Tive acesso fácil aos livros, porque, para mim, era fácil passar de um jogo de beisebol ou de uma briga a tomatadas e pedradas à leitura de alguma coisa espalhada pelo chão.

LITERATURA CUBANA

Além de Lezama, houve algum outro escritor cubano que desempenhou um papel importante em sua formação?

Antes e depois de Lezama, há uma legião de autores com esse papel formativo. Alguns deles são José Martí, Regino Boti, José Manuel Poveda, Mariano Brull, Dulce María Loynaz, Nicolás Guillén, Eliseo Diego, Guillermo Cabrera Infante e Fayad Jamís. Um livro importante foi — e ainda é — a antologia Cincuenta años de poesía cubana (1902–1952), de Cintio Vitier.

Que escritores cubanos contemporâneos você destacaria?

Reina María Rodríguez, Soleida Ríos, Oscar Cruz, Mayelín Mansfarrol, Marcelo Morales, Jorge Enrique Lage, Jamila Medina e Legna Rodríguez.

E quais temas e características têm marcado a poesia cubana de agora? 

Não é tão fácil defini-la quanto talvez tenha sido até meados ou fins do século XX. Estamos numa espécie de limbo, ou de presente interminável, em que muitas coisas acontecem, mas não surgem definições estáveis e categóricas.

Não há vozes críticas suficientemente “autorizadas” para, por meio de antologias ou de algum outro instrumento, estabelecer quais seriam os autores e textos mais “representativos”, caso isso sequer exista. Há muitas antologias, sim, mas elas sempre têm o aspecto provisório dos campos de refugiados.

Uma possível característica é que alguns autores procuram construir livros que não sejam miscelâneas de temas e estilos: livros concentrados em objetivos definidos de antemão, como se fossem uma espécie de tratado — sobre painéis solares fotovoltaicos, a colheita de mangas ou a guerra civil do peso contra o dólar, por exemplo. É uma escrita menos intimista e concebida de maneira mais racional, embora sem muita garantia de valor estético. Também adotam-se títulos de efeito, cortantes, lapidares, nem sempre condizentes com os textos que pretendem representar.

Como você percebe a recepção dos escritores cubanos contemporâneos na América Latina? 

Parece-me uma recepção anêmica e atrofiada. Nosso principal centro de validação cultural continua situado na Europa e nos Estados Unidos, ou em suas filiais latino-americanas. Seguimos dependentes da aprovação do senhor do Primeiro Mundo: de seus prêmios, editoras, revistas e universidades.

É curioso que a América Latina possua, há muito tempo, uma literatura mais vigorosa — embora muito desigual — do que a espanhola, mas que a Espanha disponha de um ecossistema literário mais desenvolvido e capaz de estabelecer hierarquias e prioridades. Talvez a maior parte do ouro esteja aqui, mas são eles que controlam a casa da moeda.

No Brasil, existe a ideia de que a educação em Cuba é muito boa. Como é o ensino de literatura?

Não estou muito a par de como anda o ensino de literatura em Cuba. Sei que são estudados Cervantes, Shakespeare, Balzac, Whitman, Martí, Kafka etc. No entanto, pude observar que, nos livros didáticos mais recentes da disciplina de literatura no Ensino Médio — antes, eram disciplinas separadas —, foram incorporados textos de autores cubanos contemporâneos de valor literário duvidoso, em detrimento, suponho, de certa quantidade de textos dos clássicos. Como dar aulas melhores com menos clássicos? Um curioso retrocesso na tentativa de avançar.

Por sua vez, a união da disciplinas Espanhol e Literatura, ao menos no Ensino Médio, reduz o peso e o tempo dedicados à literatura. Isso ocorre, entre outras razões, porque muitos professores dessa disciplina híbrida não se concentrem tanto na literatura, talvez porque eles próprios não gostem muito de ler. Muita gramática e pouca invenção. E, entre os clássicos, há ausências estranhas: nada de Lezama, nada de Borges, nada de Baudelaire, nada de Emily Dickinson. Por que será?

FUTURO?

O cenário para a publicação e a circulação de livros em Cuba já foi melhor?

Publicar era bastante fácil, sobretudo para autores sem nenhum pudor, que publicavam — e ainda publicam — mais livros do que têm de anos de vida: um amontoado de quinquilharias, que costumam chamar de “poemários”, “literatura infantojuvenil” ou qualquer outra aberração. Hoje, publicar é bem mais difícil, ao menos em formato impresso. Mas, como já sabemos, publicar menos não significa publicar melhor: os sem-vergonhas da literatura estão sempre em vantagem; nenhum escrúpulo os incomoda. Ainda acontece de livros publicados em uma província sequer chegarem à província vizinha.

Você vê alguma possível solução política para Cuba?

Entre a cruz e a espada. Nossa posição sempre foi a do perigo e da incerteza. Agora mesmo há pouquíssima eletricidade e pouco dinheiro em espécie circulando, e muitas pessoas estamos perto de não conseguir comprar comida ou carvão para cozinhar, porque os revendedores não aceitam pagamentos por transferência. O que se supõe que devemos fazer?

As pessoas querem, ao menos, sair de uma miséria intolerável para uma situação mais suportável; algumas, com uma mudança de governo e de sistema, outras, sem essa mudança radical. Para as primeiras, essa é uma condição imprescindível; para as segundas, há o temor de uma guerra civil, de um avanço ainda maior da criminalidade e dos abusos de certos antigos donos ou herdeiros de antigos donos que reivindicam propriedades, entre eles as casas das pessoas ou os terrenos onde essas casas estão construídas.

O governo tem se inclinado para um conjunto de medidas que parecem mais voltadas à sobrevivência do que a uma resposta ativa à crise brutal. Ao menos, continuarão parecendo assim até que trabalhadores e aposentados sem rendimentos extras consigam se virar. Conversando, as pessoas se entendem; mas, se for à força, nem pensar.

Minha resposta pessoal, em tom de reparto, seria: “Quanto mais você me bloqueia, mais eu cresço”. D. J. Trump quer colher os frutos mais fáceis, entre outras coisas porque há gente mais do que disposta a bajulá-lo. Ultimamente, D. J. Trump se tornou meu personagem literário mais recorrente. 

E há caminhos para a literatura de Cuba?

Proponho que escritores e editores possam desenvolver projetos culturais por conta própria, incluindo revistas, editoras e eventos, e assumir a responsabilidade jurídica e financeira por esses projetos. Por que os revendedores de arroz e feijão seriam os únicos autorizados a empreender?

Enquanto isso não acontece, que se destinem mais recursos aos projetos literários e menos aos funcionários corruptos e ineptos que proliferam nas instituições culturais. A poesia não é a primeira coisa que devemos salvar?


José Ramón Sánchez Leyva nasceu em Guantánamo, Cuba, em 1972. É autor dos livros Aislada noche (Letras Cubanas, Havana, 2005), Marabú (Torre de Letras, Havana, 2012), El derrumbe (Letras Cubanas, Havana, 2012), 22 (Letras Cubanas, Havana, 2017), Talibán (Casa Vacía, Richmond, 2018), The Black Arrow (Linkgua Ediciones, Barcelona, 2023, traduzido para o inglês por Esther Whitfield e Katerina González Seligmann). Leyva colaborou no livro Guantánamo and American Empire. The Humanities Respond (Palgrave Macmillan, Nova York, 2017) e organizou a antologia Nocaute: 6 poetas Cuba Hoje (Edicões Jabuticaba, São Paulo, 2017). Atualmente é editor da revista La Noria.